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terça-feira, 8 de março de 2022

E se o Dia Internacional da Mulher fosse um Dia Feliz?

Começo com uma pergunta provocadora e uso-a como título do post sobre o Dia Internacional da Mulher... eu sei! Mas também sei que em condições "justas" e "iguais" não haveria necessidade nenhuma de celebrar este dia. Porque o Dia da Mulher é e será sempre TODOS OS DIAS!

Fonte: TechTudo

Comecemos, portanto, pelo início. O Dia Internacional da Mulher remonta ao século XIX e começou por estar ligado aos movimentos trabalhistas da Europa e da América do Norte. O primeiro "8 de março" como o conhecemos foi celebrado pela primeira vez em 1909 e surgiu para enaltecer a greve dos trabalhadores(as) têxteis nova-iorquinos em 1908. Hoje, este dia é celebrado em quase todo o mundo.

E o que reivindicavam as mulheres nessa altura? Aquilo por que ainda lutam hoje em dia: iguais salários para iguais funções - homem/mulher, paridade no posto de trabalho, condições de vida e de trabalho condignas, igualdade. Sim, a luta de hoje pode estar mais "mascarada" mas acontece, infelizmente, pelos mesmos motivos pelos quais sucedia no inicio do século XX. Triste, não é? Mas é esta a nossa triste realidade. 

Hoje nós, mulheres, lutamos porque ganhamos menos 23% do que os homens. Lutamos porque uma em cada têrs mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual; e mais de 200 milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo foram vítimas da mutilação genital. Números assustadores, certo? Não foram dados inventados por mim; estes constam no site da ONU Mulheres.

Lutamos contra o machismo. Lutamos pela igualdade de género porque, na realidade, não somos "iguais" aos homens. E lutamos desde o início do século XX. Hoje o dia, instituido pelas Nações Unidas, em 1975 como Dia Internacional da Mulher, comemora-se em mais de 100 países. 

Ao mesmo tempo que me sinto triste por saber que existe um Dia Específico para celebrar a luta das mulheres pela igualdade, sei que esta é uma luta necessária e urgente. Já que existe, deve ser um dia de reconhecimento e de enaltecimento do papel da mulher na nossa sociedade. E é por isso que deixo alguns pontos relativos ao que, para mim, significa ser mulher:
  • Ser mulher é ser livre
  • Ser mulher é ser capaz
  • Ser mulher é gostar de si tal como se é
  • Ser mullher é ter consciência das suas qualidades e dos seus defeitos
  • Ser mulher é ter noção de que não é perfeita
  • Ser mulher é saber impôr limites e é saber respeitar-se
  • Ser mulher é ser fiel a si mesma, aos seus princípios e aos seus valores
  • Ser mulher é voar bem alto sem ter receio de ser julgada
  • Ser mulher é ser inabalável e rejeitar todo e qualquer tipo de manipulação emocional ou psicológica
  • Ser mulher é saber "colocar no respetivo lugar" gente abusadora
  • Ser mulher é ser empática, carinhosa, meiga e sensível para quem merece ter o melhor dela
  • Ser mulher é ser egoísta, rude, indisponível, insensível para quem não merece ver a sua melhor versão
  • Ser mulher é respeitar-se e respeitar os outros
  • Ser mulher é lutar pelo que vale a pena e desistir de situações e de pessoas que não levam a lugar nenhum 
  • Ser mulher é acolher quando lhe faz bem e repelir quando lhe faz mal
  • Ser mulher é ser rosa, com as suas pétalas, com os seus espinhos
  • Ser mulher é viver numa permanente dualidade de sentimentos, saber gerir a instabilidade emocional (quase constante e diária), as mudanças de humor repentinas e as hormonas descontroladas "naqueles dias"
  • Ser mulher é correr sem se saber bem para onde
  • Ser mulher é saber-se para onde não se quer voltar
  • Ser mulher é saber colocar um ponto final quando é preciso.
Ser mulher é belo, é precioso. Por isso valorizem as vossas; sejam elas tias, avós mães, irmãs, amigas, amigas coloridas, colegas, companheiras de vida, etc, etc, etc. Valorizem-nas porque cada mulher que existe neste mundo é única e especial!

... E este seria um dia feliz se não tivesse de ser celebrado... Mas é-o, ao mesmo tempo, pois assim relembramos o quão visíveis são as mulheres no nosso MUNDO!

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Violência Normalizada "Na Porta ao Lado"

Helena. Marta. Ana. Estes são os nomes das três protagonistas da triologia de filmes da SIC, "Na Porta ao Lado". Estes são os três rostos (ficcionados mas, ao mesmo tempo, tão reais) da violência doméstica que a SIC escolheu para dar visibilidade a este flagelo social. Estes são os nomes de três vítimas que tão bem retratam a violência de que são alvo as mulheres - e muitos homens, não os esqueçamos, mesmo que em número significativamente mais reduzido - NA PORTA AO LADO. 

         Foto: Direitos Reservados

Violência doméstica. Violência contra as mulheres. Violência contra as crianças. Violência contra os homens. Violência só e apenas. Temos de falar sobre isto. Temos de estar atentos ao que realmente se passa "na porta ao lado". Na nossa rua. Na nossa vizinhança. No nosso círculo de amigos. É preciso parar para refletir sobre isto. É preciso denunciar porque sim, "entre marido e mulher mete-se a colher"!

Em três telefilmes muito realistas, a SIC "toca na ferida" e retrata um crime hediondo que não pode ser ignorado - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Em particular a violência contra as mulheres. "Esperança", "Amor" e "Medo" são os nomes dos três episódios que arrepiam, de tão desconfortáveis que são. Cada um retrata um relacionamento diferente e tem em conta as suas particularidades, mas o objetivo é comum: sensibilizar para a denúncia. No final de cada filme pode ver-se, em números de um branco de esperança 116-006, o número para o qual se deve fazer uso e denunciar.

Estamos em pleno século XXI e são aterradores os números de violência doméstica em Portugal; basta abrir o site da APAV para perceber que as mulheres e as crianças são as principais vítimas deste crime que é público desde 1995. E o artigo 152º do Decreto-Lei n.º 48/95 do Código Penal prevê um enquadramento legal que regula as punições aplicáveis à prática deste crime. 

Voltemos à trilogia perturbadora dos telefilmes da SIC. Custou-me especialmente assistir ao último da trilogia "O Medo". Neste, a vítima e protagonista "Ana", tia de uma menina cuja mãe tinha sido esfaqueada pelo marido (para mim um monstro, diga-se!), suportava todos os tipos de abusos psicológicos, emocionais e físicos. E certamente estão a perguntar-se, porquê? Porque é que ela não saia de casa? Porque é que as vítimas de violência doméstica não fogem, simplesmente?

Não é assim tão linear. Elas ficam por dependências. Ficam por medo. Ficam porque não têm outra opção. Ficam por apego emocional. Ficam porque pensam que eles vão mudar. Ficam porque acreditam que não são ninguém sem eles. Ficam porque acreditam que precisam deles. Ficam porque têm medo que eles as MATEM. É por isso que ficam e não vão embora. Vivem no ciclo vicioso de um relacionamento tóxico:

Fonte: Life is cool
Mais uma vez, quem é independente financeiramente é independente de tudo o resto. A "Ana", protagonista deste filme, vivia com o marido, Presidente de Junta, os filhos, a sobrinha e os sogros.  Trabalhava no café destes e não era paga por isso. Sempre que era agredida pelo marido e as suas feridas abertas expostas ao "olho gordo" da sogra, esta ainda lhe dizia que "alguma deves ter feito para ele te ter deixado nesse estado!" Sim, porque as mulheres, em vez de se ajudarem, julgam-se umas às outras e contribuem até para perpetuar o ciclo de violência contra o mesmo género. Um ciclo que precisa de ser rompido!

É aterrador pensar que isto acontece diariamente. Na sociedade machista em que, infelizmente vivemos, que maltrata as suas mulheres e os seus idosos e que protege os agressores, somos expectadores passivos deste "cancro social" que não deveria deixar ninguém indiferente. Somos o grito mudo que prefere consentir a agir. Somos os ouvidos surdos que preferem ignorar em vez de ajudar. E somos as mulheres ignorantes que, em vez de denunciarem os animais, desculpabilizam constantemente os comportamentos dos meninos, como se os homens fossem uns atrasados mentais.

Muitos são. Mas outros são NARCISISTAS, MANIPULADORES, SOCIOPATAS ou PSICOPATAS que deviam bem tratar quem tanto se dedica à relação. Revolta-me saber que a violência é socialmente aceite e está tão normalizada na nossa sociedade. Enquanto os agressores não forem expostos, denunciados e responsabilizados pelos seus atos, podemos dizer que algo muito errado se passa. 

Chega de normalizar a violência. Chega de passar "paninhos quentes" na "cabeça dos meninos, que coitadinhos, não sabem o que fazem". Chega de responsabilizar as vítimas pela dor de que são alvo. Chega de as culpabilizar. Elas não são culpadas de NADA. Nada do que lhes acontece teve que ver com algum erro que tenham cometido. Não, elas não provocam. Não, elas não se "comportam mal". Não, elas não têm de aceitar tudo nem de se diminuírem para caber no mundo limitado dos monstros.

Elas têm voz. Elas têm uma opinião. Elas nem sempre concordam com tudo o que o companheiro diz. E se é companheiro, verdadeiro companheiro, ele devia aceitar e respeitar o ponto de vista dela, que não é nem tem de ser igual ao dele. Nada, nada, absolutamente NADA justifica a violência. Seja de que género for - psicológica, emocional, financeira, social, física e por aí fora.

Se não estás bem, muda-te. Vai-te embora. Deixa-a ir, mas não lhe batas!