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domingo, 13 de fevereiro de 2022

Sobre o caso Bruno e Liliana: Espetáculo ou Violência?

Começo este post por dizer que não vejo o Big Brother Famosos nem nenhum "Reality Show". Pessoalmente não gosto, não sinto que me façam crescer como pessoa e considero uma grande perda de tempo assistir a esses programas, quando posso estar a investir em algo realmente útil. No essencial, uma forma inútul de atirar o meu pouco (e precioso) tempo disponível ao lixo. Não vejo nem faço questão de ver. 

Fonte: A Televisão
Mas a questão não é essa; apesar de não ver este programa que considero medíocre e deplorável, acompanho as redes sociais. E, na semana que passou, estas foram inflamadas pelo caso Bruno de Carvalho e Liliana Almeida. Em causa está a forma como o ex-presidente do Sporting trata a "namorada" cantora. Até escrevo "namorada" entre aspas porque não sei se eles realmente são um casal e se o que acontece no BB Famosos é reflexo da relação que têm na vida real. Provavelmente começaram a "namorar" lá, mas isto são só especulações. 

Vamos ao que interessa. Ora, o nosso "amigo" Bruno de Carvalho alegadamente exerceu coação psicológica e violência fisica e psicológica sobre a Liliana. As imagens mostram-no e "contra factos não há argumentos". Está mal. Quanto a isto todos concordamos, certo? Se nao concordam escusam de continuar a ler este texto. Vi excertos relativos a esses episódios e senti-me desconfortável e incomodada. Está errado. E quanto a isso não tenho dúvidas.

"O problema és tu", "É comigo que tens de falar", "És tu que tens de deixar de fazer isso para eu não me passar outra vez", "Foste tu quem me fizeste descontrolar" - estas foram algumas das frases proferidas pelo agressor enquanto, de forma pouco cordial, se dirigia à vítima. Hello!!!??? Em que século vives, pá? Estou cansada de ver como a violência é normalizada e romantizada; como a vitima é constantemente culpada pelos comportamentos do agressor; como o agressor sai sempre ou quase sempre impune. 

Está mal também o facto de um canal de TV privado compactuar com estes comportamentos e nada fazer, pois isto é o que dá audiências. A questão que fica no ar é se realmente há um"guião" a ser cumprido e se isto se trata somente de "espetáculo". Se é suposto existirem estas humilhações e violência gratuita num programa de televisão cujo um dos objetivos passa por mostrar como é a vida "íntima" dos famosos.  

Fonte: Vidas.pt
Por outro lado, se os "reality shows" querem realmente mostrar o que se passa na vida real e na  intimidade das relações amorosas (diga-se, desde já, altamente TÓXICA, neste caso) ,estão a fazê-lo com sucesso. Ainda assim, penso que a divulgação de imagens como estas, de situações como estas e de comportamentos abusivos como este, podem até constituir um gatilho e um estímulo para que estas situações se perpétuem nos lares de cada um de nós. 

Considero triste e revoltante que, em pleno século XXI, se continuem a confundir "Controlo" com "Dedicação", "Isolamento" com "Preocupação", "Violência" com "Amor". Nunca controlar uma pessoa, querê-la obsecadamente só para si constituiu, uma prova de amor. Nunca afastar uma pessoa do seu ciclo de amigos revelou-se uma forma de demonstrar dedicação e cuidado. Nunca na vida coagir uma pessoa a fazer algo que a deixa desconfortável, foi um sinal de respeito. Não, amor não pode ser confundido com obsessão. 

Tenhamos os olhos bem aberto para situações como:

- Ciume excessivo e desproporcionado;
- Instablidade emocional e mudanças repentinas de humor;
- Numa discórdia, "ferver em pouca água";
- Levantamentos de voz quando acabam os argumentos;
- Bomba-relógio: nunca sabes o que te espera quando chegas a casa!
- "As tuas amigas não prestam", "Só podes confiar em mim" - frases típicas de quem te quer isolar e destruir o teu ciclo de apoio. Sem amizades és muito mais facil de dominar. É isso que ele/ela quer;
- "A culpa por eu tratar-te assim é tua". Não, não, a culpa NUNCA, NUNCA, NUNCA é da vítima. É do destabilizado/a que diz isso;
- Ameaças subtis como bater em objetos, dar murros na mesa ou num objeto de que gostes e de que precises, danificar os teus objetos, partir louça. Lembra-te, o próximo alvo SERÁS TU!

E MUITA MUITA MUITA atenção às "DESCULPAS"! Não se iludam porque eles/elas não mudam nem querem mudar porque acham que são as vítimas que "estão mal". Lembrem-se de que, ao desculpar, estão a dar cartão verde para que ele/ela volte a agredir. E da próxima vez, com mais intensidade. Do género, "como ainda não me destruiste o suficiente, da próxima vez podes matar-me!". Desculpar é dar "cartão verde" a um novo episódio... ou dois... ou três... ou infinitos!

- "Eu nem sei como aquilo foi acontecer" - Mas eu sei, oh desiquilibrado. Sei que não vales o chão que pisas!
Fonte: Mensagens com amor

SOLUÇÃO:

O afastamento e o contacto zero são os melhores remédios. Infelizmente nem sempre é possível o contacto zero, principalmente quando há menores "em jogo. Mas é importante ter o menor contacto possível. Se houver filhos, só falam sobre os filhos e ponto. 

A parte positiva de ter acontecido o que aconteceu no BB Famosos for trazer novamente este assunto a debate. Se é errado mostrarem isso na TV e nada fazerem para que mude, já que o  que interessa é "bem ou mal, desde que falem...", ao menos fala-se sobre um assunto que nunca mas nunca deve ser "varrido para debaixo do tapete". 

A vida é só uma. Não há espaço para "SÓ MAIS UMA OPORTUNIDADE". Violência não é Amor. REMEMBER.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Violência Normalizada "Na Porta ao Lado"

Helena. Marta. Ana. Estes são os nomes das três protagonistas da triologia de filmes da SIC, "Na Porta ao Lado". Estes são os três rostos (ficcionados mas, ao mesmo tempo, tão reais) da violência doméstica que a SIC escolheu para dar visibilidade a este flagelo social. Estes são os nomes de três vítimas que tão bem retratam a violência de que são alvo as mulheres - e muitos homens, não os esqueçamos, mesmo que em número significativamente mais reduzido - NA PORTA AO LADO. 

         Foto: Direitos Reservados

Violência doméstica. Violência contra as mulheres. Violência contra as crianças. Violência contra os homens. Violência só e apenas. Temos de falar sobre isto. Temos de estar atentos ao que realmente se passa "na porta ao lado". Na nossa rua. Na nossa vizinhança. No nosso círculo de amigos. É preciso parar para refletir sobre isto. É preciso denunciar porque sim, "entre marido e mulher mete-se a colher"!

Em três telefilmes muito realistas, a SIC "toca na ferida" e retrata um crime hediondo que não pode ser ignorado - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Em particular a violência contra as mulheres. "Esperança", "Amor" e "Medo" são os nomes dos três episódios que arrepiam, de tão desconfortáveis que são. Cada um retrata um relacionamento diferente e tem em conta as suas particularidades, mas o objetivo é comum: sensibilizar para a denúncia. No final de cada filme pode ver-se, em números de um branco de esperança 116-006, o número para o qual se deve fazer uso e denunciar.

Estamos em pleno século XXI e são aterradores os números de violência doméstica em Portugal; basta abrir o site da APAV para perceber que as mulheres e as crianças são as principais vítimas deste crime que é público desde 1995. E o artigo 152º do Decreto-Lei n.º 48/95 do Código Penal prevê um enquadramento legal que regula as punições aplicáveis à prática deste crime. 

Voltemos à trilogia perturbadora dos telefilmes da SIC. Custou-me especialmente assistir ao último da trilogia "O Medo". Neste, a vítima e protagonista "Ana", tia de uma menina cuja mãe tinha sido esfaqueada pelo marido (para mim um monstro, diga-se!), suportava todos os tipos de abusos psicológicos, emocionais e físicos. E certamente estão a perguntar-se, porquê? Porque é que ela não saia de casa? Porque é que as vítimas de violência doméstica não fogem, simplesmente?

Não é assim tão linear. Elas ficam por dependências. Ficam por medo. Ficam porque não têm outra opção. Ficam por apego emocional. Ficam porque pensam que eles vão mudar. Ficam porque acreditam que não são ninguém sem eles. Ficam porque acreditam que precisam deles. Ficam porque têm medo que eles as MATEM. É por isso que ficam e não vão embora. Vivem no ciclo vicioso de um relacionamento tóxico:

Fonte: Life is cool
Mais uma vez, quem é independente financeiramente é independente de tudo o resto. A "Ana", protagonista deste filme, vivia com o marido, Presidente de Junta, os filhos, a sobrinha e os sogros.  Trabalhava no café destes e não era paga por isso. Sempre que era agredida pelo marido e as suas feridas abertas expostas ao "olho gordo" da sogra, esta ainda lhe dizia que "alguma deves ter feito para ele te ter deixado nesse estado!" Sim, porque as mulheres, em vez de se ajudarem, julgam-se umas às outras e contribuem até para perpetuar o ciclo de violência contra o mesmo género. Um ciclo que precisa de ser rompido!

É aterrador pensar que isto acontece diariamente. Na sociedade machista em que, infelizmente vivemos, que maltrata as suas mulheres e os seus idosos e que protege os agressores, somos expectadores passivos deste "cancro social" que não deveria deixar ninguém indiferente. Somos o grito mudo que prefere consentir a agir. Somos os ouvidos surdos que preferem ignorar em vez de ajudar. E somos as mulheres ignorantes que, em vez de denunciarem os animais, desculpabilizam constantemente os comportamentos dos meninos, como se os homens fossem uns atrasados mentais.

Muitos são. Mas outros são NARCISISTAS, MANIPULADORES, SOCIOPATAS ou PSICOPATAS que deviam bem tratar quem tanto se dedica à relação. Revolta-me saber que a violência é socialmente aceite e está tão normalizada na nossa sociedade. Enquanto os agressores não forem expostos, denunciados e responsabilizados pelos seus atos, podemos dizer que algo muito errado se passa. 

Chega de normalizar a violência. Chega de passar "paninhos quentes" na "cabeça dos meninos, que coitadinhos, não sabem o que fazem". Chega de responsabilizar as vítimas pela dor de que são alvo. Chega de as culpabilizar. Elas não são culpadas de NADA. Nada do que lhes acontece teve que ver com algum erro que tenham cometido. Não, elas não provocam. Não, elas não se "comportam mal". Não, elas não têm de aceitar tudo nem de se diminuírem para caber no mundo limitado dos monstros.

Elas têm voz. Elas têm uma opinião. Elas nem sempre concordam com tudo o que o companheiro diz. E se é companheiro, verdadeiro companheiro, ele devia aceitar e respeitar o ponto de vista dela, que não é nem tem de ser igual ao dele. Nada, nada, absolutamente NADA justifica a violência. Seja de que género for - psicológica, emocional, financeira, social, física e por aí fora.

Se não estás bem, muda-te. Vai-te embora. Deixa-a ir, mas não lhe batas!