sábado, 8 de outubro de 2022

Netflix : O que é que Dahmer, Liv, Ada e Alex têm em comum?

Abondono, Rejeição, Injustiça, Traição e Humilhação. As cinco feridas emocionais de que fala a ensaísta Lise Bourbeau encontram-se espelhadas em algumas séries lançadas recentemente na plataforma de streaming Netflix, das quais destaco: "Respira Fundo", "A Criada", "Um Novo Eu" e "Dahmer: O Monstro - A História de Jeffrey Dahmer". 

O que têm os protagonistas destas séries em comum? Infâncias tristes, negligenciadas, atribuladas. Todos os protagonistas destas produções cinematográficas viveram "meninices" infelizes e marcadas por algum tipo de abuso e por muito sofrimento. 

A  criança ferida tem muita influência sobre a nossa vida
Comecemos por "Respira Fundo". Liv ( personagem interpretada por Melissa Barrera) para se manter viva numa ilha deserta, após o despenhamento do avião em que seguia, precisa de responder a todos os desafios impostos pela natureza ao redor e de libertar-se dos traumas do passado. Trata-se de uma história ficcionada que mostra como as marcas de uma mãe narcisista e prepotente podem condicionar o presente e o futuro de uma pessoa que luta constantemente para se libertar dos condicionamentos impostos pela privação do amor materno. 

Na mesma linha está a história da protagonista da "Criada", na qual Margaret Qualley veste a pele de "Alex", uma jovem cheia de sonhos que vive uma história de violência doméstica com uma filha pequena nas mãos. Sem qualquer tipo de suporte familiar e neglienciada por uma mãe bipolar e narcisista, Alex vê-se obrigada a reconstruir uma vida com a filha longe de tudo e de todos. Esta série leva-nos a refletir sobre como crescer numa família disfuncional pode fazer com que nos tornemos codependentes do "amor" de alguém abusivo e sem escrúpulos que, se permitirmos, facilmente e sem remorços destrói a nossa vida por completo. 

Na série turca "Um Novo Eu", três amigas partem à descoberta de si mesmas. Meditação e Constelações Familiares encontram o equilíbrio perfeito nesta viagem ao interior, ao passado e aos traumas de cada uma das três amigas turcas. Destaco a personagem "Ada" (interpretada pela atriz Tuba Büyüküstün) que é desafiada a remexer no passado de uma família "construída" com base no desamor e na traição. É no presente que Ada se depara com relações amorosas disfuncionais explicadas, em grande parte, por uma infância turbulenta e marcada, essencialmente, pelo abandono da figura materna. 

Finalmente temos a série "Dahmer: O Monstro - A História de Jeffrey Dahmer". Esta série de 10 episódios conta a história de Jeffrey Dahmer, o serial killer norte-americano que, entre 1978 e 1991, matou, desmembrou e comeu 17 homens. O "modus operandi" era sempre o mesmo; aliciar as vítimas (todas do sexo masculino e pertencentes a minorias étnicas) em bares gay com promessas de recompensas financeiras por uma sessão fotográfica. Depois de os conquistar,  levava as vítimas para casa, oferecia-lhes uma bebida com uma substância psicotrópica que as deixava inconscientes, asfixiava-as e, por fim, desmembrava-as e comia-as (em vários sentidos...). 

Ora, sobre esta última série, é preciso ver para a além do óbvio. O que fará alguém matar outras pessoas? O que vai na cabeça de algém que comete a preversidade de comer cadáveres humanos? Porquê que alguém sente atração por orgãos humanos? 

O poder da cura está dentro de nós 
E tudo começou dentro do ventre materno. Jeffrey Dahmer era filho de uma mãe depressiva e de um pai explosivo e incompreensivo. Durante a gravidez, a mãe de Jeff "encharcava-se" em medicação. É certo que o feto se recentia e também sentia as inconstantes oscilações de humor da mãe. Quando nasceu Jeff as coisas não melhoraram; o casal estava permanentemente focado nos seus problemas e negligenciava as necessidades da criança que, por inúmeras vezes, se sentiu abandonada (quer pelo pai como pela mãe). 

À medida que foi crescendo sem amor nem afeto, Dahmer construiu um  Transtorno de Personalidade Borderline que se traduzia numa grande incapacidade de estar sozinho e de lidar com a frustração. As atitudes intempestivas quando contrariado retratam o turbilhão que ia no interior desta pessoa que acabou por não saber como ser "pessoa". Faltou um modelo saudável de uma família com estrutura. Faltou amor. Faltou quase tudo. 

Em comum todas estas personagens trazem dentro de si uma criança ferida. Uma criança cujas necessidades não foram atendidas, uma criança que apenas suplicava por amor. Uma criança negligenciada e que necessitava do abraço da mãe e do suporte do pai. 

Também nós muitas vezes negligenciamos essa criança ferida que carregamos dentro de nós e que precisa de ser curada.  Ouçamo-la e curemo-la. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Quanto vale para ti um bom ambiente de trabalho?

É com esta pergunta provocadora que inicio este texto. 

As linhas que se seguem serão sobre inteligência emocional e a aplicação das soft skills no local de trabalho. É este o tema que me trás hoje até cá. Começo, então, por perguntar: como te relacionas com as pessoas com quem trabalhas? Quantas vezes já te deu vontade de gritar e barafustar com os teus colegas de trabalho? Quantas vezes já foste para casa com aquele desânimo incapacitante?

Bom ambiente de trabalho aumenta bem-estar e produtividade
Pois é, muitas vezes temos essas e outras sensações tão desfavoráveis ao bem-estar e que acabam por afetar a nossas tarefas diárias no local de trabalho. Gestão emocional. Essa é a resposta. E, para a termos, precisamos de ter inteligência emocional e um auto-conhecimento bem consolidado. Tudo isso se trabalha. 

São as situações de tensão, de ruptura ou de quebra que nos levam a colocar as coisas em perspectiva.  Qualquer crise faz com que, pelo menos, pensemos naquilo que "andamos cá a fazer" e por que motivos aconteceram essas tais situações desagradáveis. No fim, mudamos. Porque se deu aquela crise? O que poderia eu ter feito para a evitar? 

E é aqui que chegamos ao ponto do "Eu" - de me responsabilizar a mim porque aquilo que fiz, por aquilo que não fiz ou pelo que devia ter feito de outra forma. Talvez a mudança fosse mesmo necessária. Atribuir as responsabilidades a mim mesma é ter maturidade suficiente para perceber que nem tudo o que acontece é causado por fatores externos a mim. Nem sempre o Universo conspira contra mim. Eu não sou uma vítima. Assumir responsabilidades por aquilo que não fiz bem ou podia ter feito de outra forma é, além de reconhecer que não sou perfeita, um indício de que quero crescer e que tenho disponibilidade e humildade para aprender um pouco mais todos os dias.  

Não é fácil reconhecermos que temos a "quota parte" da culpa da crise sucedida. Seja no local de trabalho ou na vida pessoal. E não fazer nada é consentir, mesmo que por vezes seja para "evitar o conflito". Há conflitos necessários e é preciso agir e fazer diferente. É preciso colocar a inteligência emocional em ação e as nossas melhores softskills em funcionamento.

Comunicar com empatia é fundamental 

Ai, as softskills... aquelas de que ninguém fala e cada vez mais importantes no mercado de trabalho! Cada vez mais valorizadas pelas entidades empregadoras, cada vez mais necessárias para lidarmos, de forma positiva, com os colegas de trabalho. Cada vez mais fundamentais num ambiente de trabalho saudável. 

Mas, de que se traram as softskills? - São as nossas habilidades comportamentais. Complementares às hardskills, as competências técnicas, as softskills consistem na capacidade que temos para nos relacionarmos com as pessoas. No trabalho, na vida pessoal, em comunidade. Exemplos de softskills são a empatia, a escuta ativa, a liderança, a resiliência, a determinação, a preserverança, a comunicação não-violenta. E estas são fundamentais para criar relações positivas com as pessoas que nos rodeiam.

Os pilares de um bom ambiente de trabalho são as relações positivas, a confiança, o apoio, o "vestir a camisola", a consistência, o "remamos todos na mesma direção para um objetivo comum". Só como base nestas características e em muitas outras que poderiam aqui ser acrescentadas, é que é possível ter um excelente ambiente de trabalho. 

E quando aos benefícios de um bom ambiente de trabalho? Boa disposição, bem-estar (pessoal e social) e um consequente aumento da produtividade!

E para ti, quanto vale ter um bom ambiente de trabalho?

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Vives para Postar ou Postas Para Viver?

Depende dos momentos e das disposições. Nada é assim tão linear. Às vezes vivo para postar, outras posto para viver, embora não me identifique a 100% com nenhuma destas 'opções'. Vivo e posto quando me apetece mas não vivo necessariamente para postar. Nem posto necessariamente para viver. 

Numa época em que vivemos quase 100% online, estamos sempre ligados à Internet e quase nunca ficamos off, é normal que publiquemos fotografias, pensamentos, "histórias" e outras publicações nas redes sociais. Às vezes mal nos apercebemos e a "história" que era para ficar exclusivamente no Instagram já foi parar à "história" do Facebook. Basta um clique para o que era privado se tornar publico para sempre. 

E se não publicamos vemos as publicações do outros e mantemo-nos online na mesma. 

Fonte: Pinterest

Numa altura em que se vive online, quem não tem uma rede social "não existe". Quem não se conecta, parece que perde atualidade, que não fica a par das notícias, das piadas deste, dos desabafos daquele. Sim, nas redes sociais tudo se confunde um pouco; na mesma "parede", o mural,  onde podes ter acesso ao link para uma notícia, podes também ver as fotos do casamento de a, b ou c, identificares-te com o desabafo de alguém ou rires-te da postagem daquele amigo abonado em sentido de humor.

Podes "conversar" nos diversos chats que tens à disposição e comentar as publicações "postadas" pelos outros. 

Num espaço "público" em que não existe tristeza nem dificuldades, as vidas de fachadas são "perfeitas" e os retoques nas fotos editadas realçam o melhor (do físico) de cada um, é difícil "não viver para postar".  É difícil ser-se fiel à sua essência sem ser julgado, pois "parece mal" fugir ao padrão standardizado das "vidas perfeitas" que as redes sociais mostram. E depois resta o vazio...

O vazio de uma era em que todos temos tantos meios de comunicação à disposição e em que as pessoas se sentem mais sós e solitárias. Isto faz-me questionar se as redes sociais afinal são benéficas ou prejudiciais na nossa evolução enquanto espécie humana. (Mas isso dava assunto para outros 500, sobre os quais possa vir, um dia, a refletir).

Comparar-me ao outro? Porquê? Para quê? Em que contribui isso para a minha felicidade? 

Numa era em que parece que são as aparências que "imperam" e que ditam o que deves ou não vestir, o que deves ou não ter, como te deves ou não comportar, como deves ou não ser, como tens ou não de te sentir, é importante focarmo-nos no que é essencial. Ser a excepção da regra e a "ovelha" negra do rebanho - normalmente é essa que pensa diferente, que vai além do obvio e vê o que os outros não veem. 

Como em tudo na vida é necessária moderação; quer para viver para postar, quer para postar para viver. Eu escolho ser fiel à minha essência independentemente daquilo que faça: viva para postar ou poste para viver... ou não faça nada disto!...*

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

'Isto Acaba Aqui'

Hoje acabei de ler o romance "Isto Acaba Aqui" da escritora norte-americana Colleen Hoover. Ao longo de 331 páginas encontrei encanto, sonho, alegria, felicidade, desilusão, violência (física, emocional e psicológica), dissonância cognitiva, confusão mental, esperança e, por fim, a quebra de um ciclo familiar tóxico.  

Resumidamente, este livro conta-nos a história de Lily, uma jovem de 25 anos e de Ryle, o cirurgião por quem se apaixona perdidamente. Ambos se conhecem num terraço de um edifício, local onde Lily se refugia para pensar após o falecimento do pai. A conversa entre ambos desenrola-se e trocam contactos. Passado pouco tempo começam a namorar e o pedido de casamento não tarda em tornar-se real. E, pouco tempo depois, após o início de uma história de amor aparentemente perfeita, chega a violência e uma gravidez não planeada.

Primeiro, a violência inicia subtilmente, com umas palavras menos simpáticas e um "empurrãzito aqui, outro acolá". Depois, de uma forma indisfarçavelmente atroz, a violência que se torna física, coloca a protagonista desta história no hospital. Escusado será dizer que os pedidos de desculpa sucedem-se após cada episódio violento. [Como é habitual na vida real].

Lily assistira, na infância, aos maus tratos que o pai dava à mãe. Presenciara as palavras insultuosas, os empurrões desproporcionados e a brutalidade dos murros inflingidos no seu corpo. Assistira à violência nas suas diversas formas e isso provocara-lhe uma dor interna imensa e uma revolta indescritível por a mãe, apesar de toda a violência que vivia, não se divorciar do pai. Não sair de casa e iniciar uma nova vida. Agora, era a Lily que se deparava com um marido abusivo e violento. [será que Lily dará a volta à sua vida?]

É uma história ficcionada que pode ser real. Pode ser a de qualquer um que lê estas linhas. De qualquer homem, de qualquer mulher. [Tristemente] É a história de homens reais, de mulheres reais. Infelizmente ninguém está imune a este flagelo social, que precisa de ser travado e denunciado.

Mais do que de sofrimento e de dor, esta é uma história de coragem e de superação. Não escolhemos a família em que nascemos e muitas vezes, reproduzimos, na vida adulta, padrões que nos são familiares e que trazemos gravados no nosso íntimo, desde a infância. Mesmo que digamos que "Não quero ser como a minha mãe", "Não vou tolerar os comportamentos que o meu pai tolerava", "O meu filho/a nunca passará tão mal como eu passei", só é possível quebrar padrões familiares tóxicos quando tomamos consciência de que estes existem, que nos prejudicam e que condicionam a nossa vida. 

Só depois de identificar as causas do mal-estar familiar e ir à raíz do mesmo, procurando conhecer, por exemplo, a história dos nossos antepassados, é que se torna possível desconstruir e libertarmo-nos de problemas geracionais. Não basta falar ou mentalizar o que queremos/o que não queremos. É preciso atuar na origem do problema, perceber, aceitar e curar para não voltar a repeti-lo.

Falo de ciclos familiares tóxicos que se perpetuam ao longo de gerações. São pedaços de sofrimento insconscientes que se repetem de formas muito parecidas e incessantes até que um membro da família os descontrua e lhes coloque um ponto final. Normalmente esse membro é "a ovelha negra" que não segue o "modus operanti" instituído na sua família. Diz o que pensa e denuncia o que não está bem. É o que normalmente está "do contra" e tem uma forma muito peculiar de ver a vida, muito diferente da dos outros membros da família. Não aceita "verdades absolutas" e questona tudo.

'Isto Acaba Aqui' mostra-nos que é possível desconstruir ciclos familiares tóxicos e viver feliz. Os ciclos existem porque é extremamente doloroso quebrá-los . É necessária uma quantidade astronómica de dor e de coragem para quebrar um padrão que nos é familiar. Por vezes, parece mais fácil continuar a funcionar de acordo com os mesmos ciclos que já são familiares ao invés de enfrentar o medo de dar o salto e de possivelmente não aterrar de pé. 

Mas qual será o melhor caminho? Aceitar a dor e o sofrimento "porque a minhã mãe/o meu pai até passaram por pior" e acomodarmo-nos à infelicidade ou colocar um ponto final e ser realmente feliz? - o caminho mais saudável nem sempre é o mais fácil, mas é o que certamente nos libertará das amarras do passado. Quebremos um ciclo opressor e não sejamos o próximo elemento da família a perpetuar uma história infeliz. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Ter Razão ou Estar em Paz?

Eu escolho estar em Paz. Assim começo e assim terminarei este post. Estar em Paz para mim é muito mais importante do que ter Razão. E porquê? Porque a paz é insubstítível e ter razão é subjetivo. Escolho e escolherei ficaz em paz. O outro que com ele leve a razão, se assim se sente melhor, se isso lhe faz bem. Prefiro a Paz e a Saúde Mental para que a vida flua a meu favor. 

A paz em forma de pôr-do-sol

Escolho a Paz porque de guerra está o mundo cheio. Se não partir de nós, de cada um individualmente, como podemos pensar em ter paz no coletivo? Se o mundo interior de cada um se encontra num caos, como pensamos nós que vai ser possível ter paz no mundo experior, no plural? Estou certa de que se cada um fizer a sua parte e cuidar do seu interior, juntos, será possível termos paz coletivamente. 

A razão é subjetiva e depende sempre de uma perspetiva de colocar as coisas bem como da pessoa que as avalia. E, muitas vezes, os nossos julgamentos constroem-se como base nas nossas experiências de vida, na nossa moralidade, nas nossas convicções. O grau de subjstividade da "Razão" aí acentua-se mais. Se nem sempre as Ciências Exatas têm "Razão", tendo por base as suas teorias e as suas demonstrações matemáticas, como terá apenas um indivíduo por si mesmo?

Acredito que ninguém é dono da Razão. Nem da Verdade Dogmática. Porque dogmas só existem na Filosofia. (E será que existem mesmo?...) . Cada um, dono de si, é dono da sua Verdade, da sua Razão que, por sua vez, pode ser questionada por outro. A Razão, por si só, nua, crua e infundamentada, não existe. Existe mais do que uma razão, mais uma vez, baseada no indivíduo que avalia, de acordo com as suas crenças, valores, moralidade e prespetivas de ver a vida. E a minha forma de avaliar a vida pode ser diferente da tua. E está tudo bem.

Mais uma vez prefiro estar em Paz a ter Razão. Ambas são subjectivas, ambas têm razão à sua maneira. Mas para quê ter Razão se depois vou ficar mal como o outro? Em guerra comigo mesmo(a)? De mal como a vida? De que é que isso vale?

Prefiro a Paz à Razão. A Paz liberta, dá saúde mental, proporciona bem estar consigo mesmo e com os outros. A Paz é livre e independente, sonhadora e consistente. Proporciona tudo aquilo que a Razão nem sempre permite. A Paz deve ser alimentada e crescer a cada dia que passa, para que o bem floresça, primeiro no interior de cada um, depois na comunidade como um todo.

Eu escolho estar em Paz. Sempre.