Era vocalista n' Os
Toranja mas cantava apenas como hobbie. Foi depois de ter assistido a um concerto ao vivo que, sem conhecer o Fado, Isabel Cuca Roseta, se apaixonou por um género musical que é património imaterial da humanidade desde 2011. Numa eterna procura de si mesma estudou Direito, Psicologia, fez uma Pós-graduação em Marketing e gostava de estudar
Antropologia. Admite que, neste momento, o Fado é o seu destino.
Cuca Roseta (CR): Para mim é verdade e eu costumo associar essa palavra ao Fado. O fadista não canta um poema que não fale sobre
a sua vida. Ele é como um Bilhete de Identidade dele próprio. Se o Fado não for
a sua verdade, se a pessoa não conta a sua história, não mostra um bocadinho da
sua intimidade, não consegue chegar ao público nem emocionar ninguém. O sentido
do fado é emoção: é como dois amigos que se juntam para contar um segredo, ou
algo totalmente íntimo que nos faz rir ou chorar e que nos faz parar e pensar
sobre a vida.
AIM: Como surgiu o gosto por este género musical?
CR: Eu não ouvia Fado em casa porque os meus pais só ouviam música
clássica. Eu ouvi Fado pela primeira vez aos 18 anos ao vivo e apaixonei-me.
Na altura cantava com os Toranja, fazia baking vocals mas cantava como hobbie. Eu acho que o Fado é um género
musical que é um desafio; não é só para mostrar a voz, mas fala sobre a nossa
experiência de vida, tem um peso muito maior, e acho que eu fiquei motivada com
isso mesmo, com o facto de ser um desafio, com o facto de falar sobre a vida,
porque era isso mesmo que eu gostava de fazer, de escrever sobre a vida, de me
emocionar, parar e pensar sobre aquilo que vivemos e a forma como nós vivemos.
AIM: Como caracteriza o seu Fado em particular?
CR: Dizem que o meu Fado é mais doce, mais leve, mais
fresco, mais positivo. Eu sou uma pessoa positiva, muito nostálgica, muito
romântica que gosta de pensar sobre a vida e sobre o comportamento humano. Acho
que essa é a minha grande paixão. Mas penso na vida sempre de uma forma
positiva, mesmo que tenha de falar de experiências negativas. Apesar de tudo elas também nos fazem evoluir e crescer.
AIM: Encara o Fado como um presente que o destino lhe ofereceu?
CR: Eu costumo dizer que o Fado foi mesmo um destino. Estudei Direito, Psicologia, fiz uma Pós-graduação em Marketing
e gostava de estudar Antropologia. Sempre cantei lado a lado ao estudo e acho que encontrei o meu destino no Fado, nasci para cantar Fado e agora
tenho a certeza disso, mas durante muito tempo não via nem entendia isso. Foi,
sem dúvida, o maior presente porque não há maior presente do que nós nos
encontrarmos a nós próprios e eu encontrei-me a mim própria no Fado.
AIM: Até onde a vai levar o seu destino?
CR: Não sei, eu vivo um dia de cada vez, não crio expectativas.
Não tenho aqueles sonhos… Acho que o meu sonho é cantar, cantar aquilo que eu
vivo e viver da melhor forma. Acho que isso eu cumpro todos os dias, sempre que
posso cantar, cada vez que posso partilhar a minha música e as minhas emoções.
Mas há-de ser sempre o Fado.
AIM: Entre fados e desfados já viajou até diversos países. Qual
foi a viagem que mais a marcou?
CR: A Índia marcou-me muito e foi um dos únicos sítios que eu
gostava de viver, ou onde seria capaz de viver. Adorei a cultura e as pessoas.
Há uma admiração por Portugal que não existe aqui e que é incrível, sermos
portugueses e embaixadores da cultura portuguesa lá fora e vermos como as
pessoas valorizam cada palavra, como aprendem a falar português. É uma língua que
conquista através do Fado. Temos polacos e chineses a aprender a falar
português. Gostei muito de actuar em Nova Iorque, para o Ban Ki Mon [o
secretário-geral das Nações Unidas], para o Bento XVI em Lisboa, gostei muito
de actuar na Cisterna portuguesa em Marrocos, gosto muito de Paris, gosto muito
de cantar o Fado na cidade do amor. Tem uma quantidade enorme de portugueses quer adoram Fado e uma quantidade enorme de franceses que são completamente fanáticos por Fado. Quer a pessoa cante para uns, quanto para outros, vem sempre cheia. Também
gosto de cantar nas ilhas, porque eles também recebem o Fado com sede.
AIM: Além da música que outras paixões tem? Até onde as quer
levar?
CR: Eu gosto muito de estar sozinha, de escrever e de compor.
Eu escrevo poesia, componho e pinto. Gosto muito de pintar;
isso é algo que vou fazer a vida toda. Também faço ioga e taekwondo há 10 anos, a
minha segunda arte, que é a minha grande paixão para além do Fado. Eu nunca vou
deixar de fazer porque dá-me imenso equilíbrio. É uma arte marcial muito
completa. Eu
gosto de desafios, não gosto de estar parada. Acho que a vida é para
aproveitar e eu prefiro passar o tempo a aprender do que a não fazer nada. Tenho muita energia e quero sempre saber muita coisa.
AIM: Que planos tem para o futuro?
CR: Já estou a gravar um novo disco com um dos melhores
produtores do mundo, o Nélson Motta do Brasil, que lançou Elis Regina e cresceu
no Samba e estamos a gravar agora, já gravámos cinco temas e vamos continuar a
gravar em Janeiro. Há-de sair em Março e está a ficar lindo (risos). Vai ter
muitas surpresas e algumas participações especiais: compositores fantásticos tanto
do Brasil como de Portugal e não só.
AIM: Considera-se hoje uma pessoa feliz?
CR: Acho que me sinto realizada. Eu acho que a felicidade
encontra-se quando nós temos paz de espírito. Quando temos essa
simplicidade de ver, de valorizar o que temos, somos felizes. Eu vivo um
dia de cada vez: tenho muitas coisas boas mas também passei por muitas
coisas más. Eu acho que o mais importante é valorizarmos as coisas boas e, por
isso, sinto-me realizada.
Texto: Ana Isabel Mendes
Fotografias: Hélder Ferreira
Texto: Ana Isabel Mendes
Fotografias: Hélder Ferreira




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