sábado, 13 de dezembro de 2014

“O Fado foi o meu destino”

Era vocalista n' Os Toranja mas cantava apenas como hobbie. Foi depois de ter assistido a um concerto ao vivo que, sem conhecer o Fado, Isabel Cuca Roseta, se apaixonou por um género musical que é património imaterial da humanidade desde 2011. Numa eterna procura de si mesma estudou Direito, Psicologia, fez uma Pós-graduação em Marketing e gostava de estudar Antropologia. Admite que, neste momento, o Fado é o seu destino.

Ana Isabel Mendes (AIM): O que significa o Fado?

Cuca Roseta (CR): Para mim é verdade e eu costumo associar essa palavra ao Fado. O fadista não canta um poema que não fale sobre a sua vida. Ele é como um Bilhete de Identidade dele próprio. Se o Fado não for a sua verdade, se a pessoa não conta a sua história, não mostra um bocadinho da sua intimidade, não consegue chegar ao público nem emocionar ninguém. O sentido do fado é emoção: é como dois amigos que se juntam para contar um segredo, ou algo totalmente íntimo que nos faz rir ou chorar e que nos faz parar e pensar sobre a vida.

AIM: Como surgiu o gosto por este género musical?

CR: Eu não ouvia Fado em casa porque os meus pais só ouviam música clássica. Eu ouvi Fado pela primeira vez aos 18 anos ao vivo e apaixonei-me. Na altura cantava com os Toranja, fazia baking vocals mas cantava como hobbie. Eu acho que o Fado é um género musical que é um desafio; não é só para mostrar a voz, mas fala sobre a nossa experiência de vida, tem um peso muito maior, e acho que eu fiquei motivada com isso mesmo, com o facto de ser um desafio, com o facto de falar sobre a vida, porque era isso mesmo que eu gostava de fazer, de escrever sobre a vida, de me emocionar, parar e pensar sobre aquilo que vivemos e a forma como nós vivemos.

AIM: Como caracteriza o seu Fado em particular? 

CR: Dizem que o meu Fado é mais doce, mais leve, mais fresco, mais positivo. Eu sou uma pessoa positiva, muito nostálgica, muito romântica que gosta de pensar sobre a vida e sobre o comportamento humano. Acho que essa é a minha grande paixão. Mas penso na vida sempre de uma forma positiva, mesmo que tenha de falar de experiências negativas. Apesar de tudo elas também nos fazem evoluir e crescer.

AIM: Encara o Fado como um presente que o destino lhe ofereceu?

CR: Eu costumo dizer que o Fado foi mesmo um destino. Estudei Direito, Psicologia, fiz uma Pós-graduação em Marketing e gostava de estudar Antropologia. Sempre cantei lado a lado ao estudo e acho que encontrei o meu destino no Fado, nasci para cantar Fado e agora tenho a certeza disso, mas durante muito tempo não via nem entendia isso. Foi, sem dúvida, o maior presente porque não há maior presente do que nós nos encontrarmos a nós próprios e eu encontrei-me a mim própria no Fado.

AIM: Até onde a vai levar o seu destino?

CR: Não sei, eu vivo um dia de cada vez, não crio expectativas. Não tenho aqueles sonhos… Acho que o meu sonho é cantar, cantar aquilo que eu vivo e viver da melhor forma. Acho que isso eu cumpro todos os dias, sempre que posso cantar, cada vez que posso partilhar a minha música e as minhas emoções. Mas há-de ser sempre o Fado.

AIM: Entre fados e desfados já viajou até diversos países. Qual foi a viagem que mais a marcou?

CR: A Índia marcou-me muito e foi um dos únicos sítios que eu gostava de viver, ou onde seria capaz de viver. Adorei a cultura e as pessoas. Há uma admiração por Portugal que não existe aqui e que é incrível, sermos portugueses e embaixadores da cultura portuguesa lá fora e vermos como as pessoas valorizam cada palavra, como aprendem a falar português. É uma língua que conquista através do Fado. Temos polacos e chineses a aprender a falar português. Gostei muito de actuar em Nova Iorque, para o Ban Ki Mon [o secretário-geral das Nações Unidas], para o Bento XVI em Lisboa, gostei muito de actuar na Cisterna portuguesa em Marrocos, gosto muito de Paris, gosto muito de cantar o Fado na cidade do amor. Tem uma quantidade enorme de portugueses quer adoram Fado e uma quantidade enorme de franceses que são completamente fanáticos por Fado. Quer a pessoa cante para uns, quanto para outros, vem sempre cheia. Também gosto de cantar nas ilhas, porque eles também recebem o Fado com sede.

AIM: Além da música que outras paixões tem? Até onde as quer levar?

CR: Eu gosto muito de estar sozinha, de escrever e de compor. Eu escrevo poesia, componho e pinto. Gosto muito de pintar; isso é algo que vou fazer a vida toda. Também faço ioga e taekwondo há 10 anos, a minha segunda arte, que é a minha grande paixão para além do Fado. Eu nunca vou deixar de fazer porque dá-me imenso equilíbrio. É uma arte marcial muito completa. Eu gosto de desafios, não gosto de estar parada. Acho que a vida é para aproveitar e eu prefiro passar o tempo a aprender do que a não fazer nada. Tenho muita energia e quero sempre saber muita coisa.

AIM: Que planos tem para o futuro?

CR: Já estou a gravar um novo disco com um dos melhores produtores do mundo, o Nélson Motta do Brasil, que lançou Elis Regina e cresceu no Samba e estamos a gravar agora, já gravámos cinco temas e vamos continuar a gravar em Janeiro. Há-de sair em Março e está a ficar lindo (risos). Vai ter muitas surpresas e algumas participações especiais: compositores fantásticos tanto do Brasil como de Portugal e não só.

AIM: Considera-se hoje uma pessoa feliz?

CR: Acho que me sinto realizada. Eu acho que a felicidade encontra-se quando nós temos paz de espírito. Quando temos essa simplicidade de ver, de valorizar o que  temos, somos felizes. Eu vivo um dia de cada vez:  tenho muitas coisas boas mas também passei por muitas coisas más. Eu acho que o mais importante é valorizarmos as coisas boas e, por isso, sinto-me realizada.

Texto: Ana Isabel Mendes
Fotografias: Hélder Ferreira

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