quinta-feira, 13 de novembro de 2014

“É perfeito viajar e ao mesmo tempo tocar e conhecer pessoas”

Aos 27 anos de idade Luisa Sobral já conta com três álbuns editados. O primeiro, "The Cherry On My Cake" saiu em 2011 e o último, "Lu-pu-i-pi-sa-pa" estreou  esta semana. Em digressões nacionais e internacionais, Luisa Sobral mostra-se satisfeita por conseguir consiliar as viagens e a música ao mesmo tempo que conhece gente. Não tem medo de arriscar e promete continuar a somar sucessos cá dentro e lá fora. Hei-la realizada e feliz.

 
Em palco disse que o seu albúm estreou há uma semana. Como é que está a correr a primeira semana?

Até agora está a correr muito bem. Já tive muitas visualizações no youtube, da canção, tem acontecido uma coisa que não aconteceu nos outros álbuns: há muito poucas criticas negativas. Normalmente é um bocadinho raro, estou feliz com isso. Tem tido boa aceitação por parte dos jornalistas, quando falam sobre o disco, das pessoas que se identificam com as canções e que lhes lembra a infância. Isso para mim é das coisas mais giras também. Tem sido muito bom até agora.


Vai apostar também em músicas portuguesas?

Não sei, eu não penso muito nisso. Este disco fez todo o sentido para mim ser em português porque é um disco para crianças, portanto eu quis logo escrever em português. O meu próximo disco tem quase todas as músicas em inglês, eu já tenho quase o disco todo feito e é muito em inglês. É o que eu sentir, neste disco senti em português porque é para crianças portuguesas. Mas eu vou fazer como me apetecer.


Em termos do processo criativo… compõe música e letra ao mesmo tempo?

É tudo ao mesmo tempo, uma coisa puxa a outra, normalmente a harmonia puxa a letra e vai saindo. 

Canta em inglês. Em termos internacionais abriu-lhe algumas portas? 

Eu acho que sim. Estamos a planear ir a Londres no início do próximo ano, e isso é feito dessas coisas. Abriu-nos a porta para outros países. Vamos ter agora um tornée a Aústria, Alemanha, Luxemburgo, Suiça, e tudo isso também vem dessas coisas. É difícil às vezes ver quais foram as consequências, mas consequências gerais existiram. 


Em termos da internacionalização… normalmente a música portuguesa é mais conhecida pelo fado. Como tem sido o acolhimento à sua música lá fora?

Muito boa, porque não é considerada música portuguesa. É considerada música e a cantora portuguesa. Não é considerada música portuguesa. Eu acho que em vez de verem a música portuguesa geral veêm uma cantora portuguesa. Eu também sinto que na nossa carreira faz parte ir apostando e, se calhar, no início as coisas são mais difíceis mas nós apostamos porque acreditamos que vamos construindo e tem dado frutos. Nós fizemos uma tornée na Alemanha e só eu e o baixista, fomos abrir uns concertos lá e eu disse “somos só os dois mas vamos fazer um concerto”. Então construímos um concerto só os dois e, por causa desse concerto, vamos fazer um tornée grande e por isso temos de acreditar que com o apoio da minha editora e do meu manager as coisas vão ter consequências e temos de ser nós a trilhar esse caminho. 

É preciso não se acomodar só aqui a Portugal…

Eu adoro Portugal. Adoro tocar em Portugal, adoro viajar e adoro conhecer o mundo e se eu posso juntar as duas coisas. Também se conhece um pouco com a maneira como reage às músicas por isso para mim é perfeito poder viajar e ao mesmo tempo tocar para conhecer as pessoas e mostrar-lhes a música que eu faço. Para isso é que eu também quero tocar mais lá fora.

Em termos de concerto nota-se que há uma forte ligação com os restantes membros do grupo, mas o que me encantou foi que a Luisa é uma mulher dos sete instrumentos…

Mais ou menos. Eu acho que fiz um bocadinho porque eu acabo por tocar arpa numa canção, banjo noutra. As pessoas pensam que eu toco esses instrumentos mais eu só toco banjo naquela canção, só toco arpa naquele canção, sou um bocadinho falsa nisso. Eu não toco todos mas as pessoas acreditam que sim. Eu vou encontrando a musicalidade de cada instrumento. Dá-me imenso prazer descobrir o instrumento e saber como se toca mas não posso dizer que toco todos.

Nota-se muita criatividade, com o Medley do telefone, o tema "Call me maybe "de Carly Rae Jepsen

Sim, foi uma coisa que fizemos juntos. Eu queria fazer uma coisa de precursão corporal, e então foi o baterista Carlos Miguel que desenvolveu isso com esta música e ele fez essa parte. Realmente há essa química entre nós. Para mim é o mais importante: a música e haver uma relação boa entre as pessoas porque estamos juntos muito tempo, porque passo mais tempo com eles do que com os meus amigos e a minha família. Eu gosto muito quando sinto que há uma boa energia entre os músicos. 

Entrevista: Cid Ramos e Nuno Oliveira
Edição: Ana Isabel Mendes

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Aluna do Louriçal estreia-se no mundo da poesia

A apresentação do livro “Descobre-me Entre as Linhas” realizou-se no sábado, dia 20 de Setembro, às 17h30 na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz. A obra da autoria de Sara Carvalho, aluna do 12º do curso profissional de Técnico Multimédia, contou com o apoio do Instituto D. João V (IDJV) e da Chiado Editora. Houve tempo para a interpretação de dois temas musicais e para a leitura de alguns dos poemas do livro.

“Reuni um conjunto vasto de poemas e pensei em publicar um livro”, explica Sara Carvalho, acerca da ideia que foi surgindo ao longo do tempo. Foi em Junho deste ano que entrou em contacto com a Chiado Editora que reconheceu o trabalho desta jovem e a lançou no mundo da poesia. “Sempre gostei muito de ouvir poesia, mas escrever mesmo só de há um ano e meio para cá”, explica. 

Sara Carvalho apresenta livro
“Descobre-me Entre as Linhas” conta com 54 páginas, onde são retratados sentimentos como “amor, paz, amizade, saudade, lealdade e confiança”, aqueles que a autora quer transmitir. Este é um livro transversal a todas as idades. “Se a pessoa que comprar o livro for jovem, serve para se identificar e perceber alguma coisa do mundo jovem, que nos custa, por vezes, entender. Se for adulto, o objetivo é o de perceber o seu filho, o seu sobrinho, e recordar a juventude”, argumenta a autora.

Além da leitura e da escrita, Sara Carvalho tem outras paixões: são prova do curso de multimédia que frequenta atualmente – o design e a fotografia. “São gostos que posso conciliar”, explica. Contudo, admite que pretende suspender por algum tempo a escrita. “Estou a pensar parar um bocadinho para me dedicar à escola e à multimédia, que é também o que eu gosto de fazer. Futuramente, adorava conseguir conciliar as três áreas”, refere. 

Sara tenciona continuar a escrever. Mas da próxima vez quer aventurar-se no mundo da prosa, embora ainda não saiba datas. “Gostava de algum dia conseguir escrever uma narrativa, um romance”, diz. Acrescenta ainda: “quanto à multimédia quero seguir estudos superiores na área de fotografia”.

A apresentação do livro teve casa cheia. Contou com a presença de Cristiana Costa, colega de Sara Carvalho que interpretou dois temas: “Não sei quem te perdeu”, de Pedro Abrunhosa e “Chuva”, de Mariza. A apresentação terminou com a declamação de alguns poemas, por colegas da jovem poetiza. Os aplausos demonstraram o reconhecimento, por parte do público, por todo o trabalho.

(publicado na edição de outubro do "Notícias da Sua Terra") 

domingo, 2 de novembro de 2014

Voluntariado: Uma Missão, Uma Paixão


Fazer voluntariado é fazer mais do que distribuir alimentos. É uma actividade durante a qual se dá valor à esperança. Constrói sonhos de quem nunca recebeu um abraço em toda a vida. 
  
Falta um quarto de hora para as 21h00. Estou no Campo das Cebolas. É quase Verão e está uma noite agradável; não há vento. Ainda os voluntários do Centro de Apoio ao Sem-Abrigo, C.A.S.A, não se juntaram no sítio habitual, já ao longe se avistam algumas pessoas que, a passos determinados e silenciosos, se vão aproximando. São as caras conhecidas de todos os dias e mais umas quantas novas. O olhar distante do senhor Viegas e o sorriso tímido, mas inconfundível, do Sérgio deixam transparecer uma necessidade comum a todo o ser humano; a de ser ouvido por alguém que se interesse durante alguns minutos. A fila que se forma junto ao automóvel de Paulo Ferroni, terapeuta na instituição C.A.S.A., é interminável. As solicitações são muitas. 

Os voluntários, depois de se organizarem, procedem à habitual distribuição de refeições quentes. Há, também, pães com fiambre e sandes de queijo. Há, ainda, bolos de pastelaria para todos os gostos.   
“Pode dar-me mais um pãozinho, por favor? É para a minha filha que ainda está a estudar”, pede uma senhora simpática após já ter recebido o pão a que teve direito. Olho para a senhora bem constituída e bem apresentada: vejo que os seus olhos húmidos e entristecidos apelam à minha solidariedade e ao meu espírito humanitário. Não hesito em oferecer-lhe mais um pão com queijo. “Muito obrigada, menina”, esboça um enorme sorriso agradecido. Retribuo e sorrio. Sinto-me feliz por já ter ajudado alguém esta noite. Hoje, o C.A.S.A distribui refeições quentes e embaladas 365 dias por ano na zona de Lisboa, do Porto, de Coimbra, de Faro, de Setúbal, de Cascais e na Região Autónoma da Madeira. Em Portugal já são 1000 as refeições distribuídas todos os dias do ano. 


A procura de alimentos não é a única razão pela qual os sem-abrigo acorrem, invariavelmente, ao Campo das Cebolas, todos os dias, à mesma hora. “Mais do que fome de alimentos, o sem-abrigo tem fome de palavras.” Carlos António, 35 anos, exteriorizou um pouco daquilo que sente quando está em contacto com os sem-abrigo, no momento em que o abordei. É voluntário há cerca de um mês e meio.                                             

O encontro de uma palavra amiga, que sabem que vão ter, ou de um abraço caloroso são dois motivos que levam muitos sem-abrigo ao encontro dos voluntários. Durante cerca de uma hora e meia podem esquecer-se dos olhares distantes e indiferentes que recebem durante o dia. É nesta altura que sabem que alguém se importa, realmente, com eles. Como diria alguém, num tempo indeterminado, a solidão é quando vemos os outros; porém eles não nos vêem a nós.        

 “Boa noite senhor Viegas!” saúda, entusiasticamente, Safira Brás, 20 anos, que já conhece bem o “Senhor das Anedotas”. Depois de ter pegado na sandes de queijo e no bolo que, há momentos, lhe oferecemos, o senhor Viegas dá início a mais uma “sessão” interminável de lengalengas e de anedotas. “Qual é o nome da terra que também é o nome de um senhor muito, muito, velhinho?”, demoramos imenso tempo a pensar na resposta. Quase nunca acertamos. A criatividade do senhor moreno é superior à nossa perspicácia. Sem mais demoras, o senhor de idade avançada, apressa-se a responder, “Ancião!”. Todos nos rimos e aplaudimos a sua imaginação fértil. “Ora, “Ancião” é o nome de uma localidade próxima da minha, Pombal”, diz Ana, 19 anos, orgulhosa por ouvir uma referência à cidade da qual sente saudades.   

“O senhor Viegas é muito interessante: é inteligente e culto”, afirma Safira, a rapariga morena e de estatura média, quando questionada acerca da sua opinião relativamente ao “Senhor das Anedotas”. Ao contrário daquilo que muitos pensam, a rapariga de vinte anos considera que os sem-abrigo são pessoas “simpáticas e inteligentes”. No que se refere ao exercício do serviço de voluntariado, a jovem estudante está certa de que o contacto com uma realidade diferente da sua, fez com que tivesse crescido, e que se tivesse tornado mais rica e mais consciente de um mundo do qual faz parte.     

“Para mim, mais do que dar, fazer voluntariado é receber”, afirma Manuela, 43 anos, com um brilho nos olhos castanhos. Na realidade, fazer voluntariado não é, exclusivamente, sinónimo de distribuir roupas nem de trocar alimentos. Para a maior parte das pessoas que se reúne em torno do carro que transporta os alimentos, ouvir um “olá” ou receber um simples sorriso é ainda mais importante do que receber a sandes ou o bolo que lhes são oferecidos. Nas palavras de Manuela, “o sem abrigo não tem fome. Nenhuma das pessoas que está aqui passa mal”. Salienta a importância que têm as palavras, os gestos ou os sorrisos ou os “dois dedos de conversa” dados pelos voluntários.    
          
Depois de o estômago estar saciado, há roupas para distribuir. “Ora, quem quer vestir uma camisa?”, pergunta Paulo ao agarrar uma peça de vestuário de homem. “Tenho aqui umas sapatilhas que devem ser o 40”, afirma o homem careca com um sorriso estampado no rosto. Os sem-abrigo interessados colocam as mãos no ar. Vejo, somente, umas duas ou três. Nem todos estão interessados. Mas a roupa que estava, nem há cinco minutos, nos sacos, já foi completamente distribuída.  
                                                
O voluntariado transforma tanto os que ajudam quanto os que são ajudados. “Assim que chegamos aqui tornamo-nos, automaticamente, pessoas diferentes. Alteramos os outros tal como eles nos alteram a nós”. Manuela, missionária e presidente da instituição de solidariedade social “Consigo Mais”, defende que as pessoas que entram no voluntariado tendem a ficar mais conscientes de determinados problemas sociais, mais especificamente, os associados aos sem-abrigo.        

Ao participarem em actividades que visam promover o bem-estar dos que vivem pior, as pessoas sentem que estão a agir bem e, por isso, sentem-se realizadas consigo próprias. “Esta experiência fez-me crescer e o voluntariado já faz parte de mim. É algo muito gratificante e que me faz crescer todos os dias um pouco por dentro”. Actualmente, para além do serviço de voluntariado com os sem-abrigo, a missionária trabalha no âmbito de uma instituição que visa promover a sanidade mental e psicológica das pessoas que requerem tais apoios, mas que não têm recursos financeiros para os cobrir. Manuela pretende continuar a promover actividades de âmbito social e a dar sempre um pouco mais de si a quem precisa.

A noite avança a um ritmo insustentável. O céu escuro toma conta do espaço onde nos encontramos. As pessoas começam a dispersar-se. Já é tarde; são 22h15. Aos poucos, os voluntários começam a despedir-se. Cada sem-abrigo segue o seu rumo. Mas, antes de tudo isso há, ainda, tempo para tirar algumas fotografias. Sou abordada por um sem-abrigo de origem africana. Não me recordo do seu nome. Pede-me para lhe tirar uma fotografia. “Com todo o gosto”, respondo. Juntam-se os sem abrigo que ainda não foram embora e alguns dos voluntários que restam. “Digam ‘cheese’”, o ‘clic’ da máquina ouve-se e logo a seguir vê-se a luz branca do flash.                                          

As histórias de vida das pessoas que aqui vêm parar todos os dias são imensas e muito diversificadas. Desde casos de abandono, a problemas associados ao consumo de álcool e de drogas, passando por situações de maus-tratos, de desemprego ou de imigração (muitas vezes em situação ilegal), o que todas as histórias têm em comum é o mesmo fim triste: a rua. Paulo Ferroni, terapeuta no C.A.S.A. refere que, no que toca aos sem-abrigo, “estas são pessoas como todos nós; no entanto perderam tudo o que tinham na vida”.  

                                     
No que diz respeito a números, segundo dados divulgados pela agência Lusa, e pela base de dados anunciada pelo governo em Março de 2009, a população sem-abrigo é 84% masculina. Mais de metade tem entre 30 e 49 anos de idade e 54% tem o sexto ano de escolaridade.                

Não é só através dos alimentos que distribui que Paulo pretende apoiar quem de si precisa. Tenta promover o coaching. Esta actividade surge com o objectivo de mostrar às pessoas que elas sabem fazer alguma coisa. Ajuda-as a encontrarem o seu próprio caminho e a valorizarem-se a si e às suas capacidades de trabalho. É através deste programa que Paulo pretende fazer com que as pessoas não fiquem agarradas ao “ciclo de dependência” gerado pela comida que lhes é dada.             

Tal como Paulo Ferroni, Luís Branco, 52 anos, tem vindo a desenvolver um projecto de coaching, do qual é coordenador, há cerca de três anos, “Guerreiros de Luz”. “ O projecto não tem fins lucrativos e destina-se ao trabalho com os sem-abrigo. Fazemos coaching de modo a tirar as pessoas da rua e a fazer com que elas voltem a acreditar nas suas capacidades de trabalho. Queremos indicar-lhes o caminho certo”.      
                         
Luís Branco sempre participou em seminários de desenvolvimento pessoal e o seu percurso no voluntariado já tem cerca de sete anos. Afirma que, com esta actividade, aprendeu “a não julgar os sem-abrigo e a desfazer preconceitos que anteriormente tinha sobre eles”. De facto, os filmes estrangeiros que vê, não lhe facultam uma visão real dos sem-abrigo. Gosta de estar no terreno e de poder conviver com pessoas diferentes, mas iguais a si. Acrescenta, com um sorriso nos lábios, que o voluntariado “é uma actividade muito gratificante porque, com esta, pode ajudar outras pessoas”.               

 Ainda no que se refere ao coaching, Paulo Ferroni diz que “oferecer comida é sempre um meio, nunca um fim em si. É uma forma de ganharmos confiança com os sem-abrigo para que, mais tarde, possamos iniciar a terapia”. O terapeuta tem consciência de que é imprescindível estimular as pessoas e “entrar no seu mundo” para que possam conversar abertamente acerca das soluções para as tirar da situação difícil em que se encontram. Afirma, também, que isso só é possível com a força de vontade de cada um, “é fundamental que as pessoas acreditem no que, de facto, são capazes de fazer. Nem sempre isso acontece. Mas eu estou aqui para ajudar”.      

A terapia consiste numa “troca por troca”; por prestar um serviço, utilizando as capacidades de que dispõe, a pessoa recebe aquilo de que precisa.    Por vezes, quando não consegue atingir os objectivos aos quais que se propôs, Paulo pensa, “ao dar comida estou a perpetuar um ciclo de dependência; muitos acham que a sociedade lhes tem de dar tudo. Queixam-se quando não temos o que querem, exigem que lhes devíamos dar o mesmo que outras instituições”. De facto, algumas das pessoas que procuram os voluntários, não aceitam o que lhes é dado. Querem mais. Mas não é possível; muitos desconhecem que a instituição não beneficia de apoios por parte do Estado. “Por vezes pedem água. Só oferecemos comida porque não temos bebidas para dar”. Os alimentos e as roupas que a instituição para dar são cedidos por pastelarias e pelos próprios voluntários.

O contacto com as pessoas implica uma inevitável criação de laços de amizade. Mas, tal como afirma Luís Branco, “é preciso desligamo-nos das emoções quando estamos aqui. Temos que dar um pouco de nós sem dar a conhecer os nossos medos e as nossas inseguranças”. Sabe que é bom criar um ambiente de empatia para ficar a conhecer um pouco mais das histórias dos sem-abrigo; no entanto, prefere manter uma atitude defensiva. Paulo Ferroni partilha a mesma opinião. “Evito estabelecer laços fortes para me defender e para não criar conflitos no seio do ‘grupo’. Algumas pessoas podem começar a pensar que eu tenho preferências e isso gera um clima hostil”.   

Está na hora de regressar a casa. Não quero dizer “adeus”. Parece que o tempo se escapa tão depressa, que nunca dá para ouvir as histórias de todas as pessoas com quem contactamos, durante aquela hora e meia. Quase não há ninguém na rua. Vou com a sensação de que fui útil. Todos os sem-abrigo “precisam de sentir que há pessoas que não lhes são indiferentes”. É este o espírito solidário que dá sentido às terças-feiras à noite dos voluntários do C.A.S.A.