quinta-feira, 16 de novembro de 2017

“Sempre tive uma empatia especial com África”

Leiriense de gema e com 43 anos de idade foi em 2007 que Catarina Henriques decidiu rumar a África. Leva na bagagem sete anos de Angola e três de Moçambique. Apesar da experiência de vida que lhe proporcionaram as passagens por Luanda e por Maputo, a assistente social trás Leiria no coração e não prescinde das férias junto da família.

Foi ao acaso que surgiu a oportunidade de viver e trabalhar em Angola, há sete anos. “O meu marido trabalhava numa multinacional portuguesa, que decidiu expandir o seu negócio para Luanda”, explica Catarina. Apesar de não ter sido fácil tomar a decisão de despedir-se do emprego em que estava efectiva no município de Cinfães, fez as malas e seguiu, com o marido, rumo ao desconhecido. Poucos meses depois de ter aterrado em terras africanas, estava a trabalhar como docente na Universidade Gregório Semedo, em Luanda.


De mente e coração abertos, Catarina acredita que a emigração é uma das melhores fases da sua vida. “Sempre tive uma empatia especial com África”, admite a assistente social que está apaixonada “pelas artes e pelas pessoas que são muito criativas, e encontram sempre solução para os problemas”.

Luanda marcou o início da aventura que, em 2014, levou Catarina e o marido até Maputo. Foram, novamente, motivos profissionais que proporcionaram uma viagem e uma vida nova na capital de Moçambique. Na altura, a família estava a crescer: as gémeas Maria e a Joana nasceram aquando da mudança para Maputo.
“Se por um lado abdiquei da minha vida profissional, por outro, esta instabilidade fez com que enveredasse por experiências desafiantes, que me permitem apoiar as minhas pequenas e os outros”, admitiu Catarina na altura em que decidiu abrir uma empresa de consultoria e serviços, a “Valor Humano”. Diariamente divide-se entre as explicações, a formação, o Reiki e as tarefas de mãe a tempo inteiro.

Pessoal e profissionalmente realizada, Catarina Henriques aconselha os emigrantes a viajarem com a mente e o coração abertos e a aproveitar a multiculturalidade que os países de acolhimento têm para oferecer. Sabe que comparar Portugal a Moçambique “é um erro porque são realidades incomparáveis e só cá está quem quer”.

O melhor por cá
A assistente social acredita que o clima, a humildade das pessoas, o sorriso das crianças e a veia artística dos nativos são os aspetos mais positivos da vida em Maputo. Gosta das capulanas – vestidos típicos - coloridas e é fascinada pela pintura e pelo artesanato.
O pior por cá
Para Catarina o mais chocante é “no dia-a-dia termos de nos tornar frios e insensíveis à pobreza. Às vezes temos de ignorar, mas nem sempre é fácil”.
O mais surpreendente
O sorriso estampado na casa das pessoas apesar das inúmeras dificuldades. “Os nativos vivem com pouco mas são mais alegres do que os europeus”, destaca. “A alegria e o sentimento de satisfação são aspetos enraizados na cultura moçambicana”, conclui.

sábado, 11 de novembro de 2017

“As escolas portuguesas são fulcrais na disseminação da Língua Portuguesa pelo mundo”


A Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Teresa Ribeiro, visitou as instalações da Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) na manhã de quarta-feira, 8 de Novembro. “Mangas Verdes com Sal”, de Rui Knopfli, foi o poema com que os alunos do 9ºano das turmas A e D receberam a personalidade, no átrio central da escola.


À recitação do poema seguiu-se a declamação, pelos mesmos alunos, do poema adaptado, de Ducia Soares, “Cores e Sabores da Casa Amarela”, e coordenado pela professora Fáira Semá. No mesmo espaço esteve patente uma exposição alusiva aos 130 anos da elevação de Maputo a cidade, coordenada do grupo disciplinar de história, que pôde ser visualizada pelos visitantes. A par dessas actividades houve, ainda, oportunidade para a Secretária de Estado, a Embaixadora de Portugal em Moçambique e toda a comitiva degustarem alguns sabores da gastronomia local.

Esta foi a terceira visita de Teresa Ribeiro, à EPM-CELP. Foi com surpresa e agrado que mencionou a sua satisfação ao ver a exposição “Física no Dia-a-Dia”, que “valoriza a existência de pequenos cientistas” bem como com a recuperação e expansão do novo campo exterior destinado ao desporto na escola. 

Aproveitou a ocasião para sublinhar a importância da actividade física numa altura em que “os miúdos tendem a ficar passivamente em frente da televisão, sem perceber a importância do trabalho de equipa, que desenvolve relações de respeito e aprendizagem”.

No que se refere à importância política do investimento do Estado Português destinado à EPM-CELP e a outras escolas portuguesas no estrangeiro, a diplomata garantiu que “é um investimento a longo prazo, com uma grande importância”. Ressalvou que os laços que se criam entre os moçambicanos, os portugueses e os alunos de outras nacionalidades, não vão ser esquecidos: “esses laços vão perdurar muito para além do seu percurso na escola, o que vai ser sempre muito importante no futuro, para o estabelecimento de redes de contacto”, disse.

Teresa Ribeiro falou, também, no facto de os alunos serem embaixadores da Língua Portuguesa no mundo. “Todos os que vêm para aqui aprender vão ser embaixadores da Língua Portuguesa, principalmente pela qualidade e pela experiência que aqui tiveram”, frisou.
Concluiu a passagem pela EPM-CELP com uma palavra acerca da importância das escolas portuguesas nos países lusófonos: “são absolutamente fulcrais em termos da difusão da língua, da cultura, da mundividência, são grandes potenciadores e multiplicadores de resultados da política externa de Portugal em muitos pontos do globo”, concluiu Teresa Ribeiro.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Unidos na Diversidade" relembrou importância do estreitamento de relações entre Europa e África

"Unidos na Diversidade" foi o tema da terceira edição da semana da União Europeia em Maputo, que levou diferentes manifestações artísticas à Escola Secundária Josina Machel de quarta-feira, 01 de Novembro a sábado, 04 de Novembro de 2017. 

Dar a conhecer ao público algumas das actividades da Delegação da União Europeia e dos seus Estados-Membros em Moçambique foi o principal objectivo do evento que resultou da cooperação ente o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano e o Ministério da Juventude e Desportos. 

"Tentámos ter dois momentos durante o ano onde nos centrávamos as nossas acções de comunicação e de visibilidade", mencionou Simão Maia, oficial de comunicação e imprensa da delegação da União Europeia em Moçambique. "Temos o 9 de maio, Dia da Europa, em que sempre fazemos eventos e, desde há três anos para cá, decidimos fazer um momento em que juntávamos várias vertentes", explicou.

Afinal são dois eventos distintos que se completam: um mais focado em conferências, mesas redondas, debates, "de temas de Bruxelas que são temas de debate cá", o da Semana da União Europeia e outro, o do Dia da Europa,  mais direccionado às artes, com espectáculos de música, dança e cinema.

Na semana passada celebrou-se a cooperação entre Moçambique e a União Europeia. "Convidamos artistas moçambicanos ou fazemos concursos, como o de fotografia", exemplificou Simão Maia. A parte das actividades artísticas existem torneios desportivos entre escolas. "Este ano promovemos um torneio de futebol de salão e outro de basquetebol, para apoiar o desporto em Moçambique", destacou o oficial de comunicação e imprensa da delegação da União Europeia

Entre as novidades levadas à edição deste ano destacaram-se o basquetebol, já que nas edições anteriores o desporto, nomeadamente o futebol, é levado sempre para a praia; os encontros entre os agentes dos diferentes representantes dos centros culturais, como o Franco-Moçambicano, o Centro Cultural Brasil-Moçambique, o Centro Cultural Americano Maputo, entre outros, que proporcionou o "casamento" entre os debates e o estado da cultura em Moçambique; e a deslocalização do evento do Museu das Pescas para a Escola Secundária Josina Machel para facilitar o acesso a todos.

"A semana da União Europeia veio para ficar", frisou Simão Maia. "Queremos crescer com os moçambicanos. Todos os anos temos um esforço de tentar encontrar artistas, entre os quais músicos e dançarinos novos, para lhes dar alguma projecção para que a semana cresça assim como os artistas", concluiu.

O chefe da delegação, Sven KÜHN VON BURGDSDORFF, destacou que "a cultura facilita o encontro de pontos comuns entre os povos, em dimensões diferentes. A maneira de comunicar através da cultura é mais fácil do que da interacção idiomática". Falou na necessidade de capacitar os artistas moçambicanos para terem uma maior projecção fora do país e nas artes como foco criador de emprego."A Índia as artes têm uma grande importância na criação de postos de trabalho, nomeadamente por causa do cinema de Bollywood", ressalvou Sven BURGDSDORFF.

Por último, destacou a importância de continuar a estabelecer pontes entre a cultura africana e a europeia. "Sempre houve migrações entre os povos e tribos durante milhares de anos. A União Europeia é constituída por 28 nações e dentro de cada nação temos uma multidão de províncias. Aceitar esta riqueza é ter um estilo de vida positivo é aceitar a diversidade", finalizou.

Para aceder à página da Delegação da União Europeia em Moçambique basta clicar aqui.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Vida do músico moçambicano Chico António inspira “A história do João Gala-Gala”

"A história do João Gala-Gala" foi a obra apresentada no Centro Cultural Português em Maputo na quinta-feira, 26 de Outubro. Trata-se de um livro infantojuvenil que, em tom autobiográfico, retrata a história de vida do músico moçambicano Chico António.

Foi com “casa cheia” que foi apresentada a obra que “narra a aventura de um rapaz que viaja do campo para a cidade onde semeia amigos e histórias e recolhe sons e harmonias com que mais tarde comporá as suas canções”, como pode ler-se na sinopse do livro.

Crianças a assistir à apresentação do livro
Pedro Pereira Lopes, um dos autores afirmou que esteve “a reflectir na forma como o livro podia ser um exemplo para os meninos de rua”. Constatou que “provavelmente os meninos de rua não terão acesso ao livro, ou sim, se a escola portuguesa tornar o livro acessível às escolas moçambicanas através das parcerias que estabelece com esses centros educacionais”. Este pretende ser um exemplo de coragem para todos os meninos que estão na rua, já que “é uma história bastante local mas tem uma dimensão universal”, frisou o mesmo.

Chico António e Ana Mendes
O músico moçambicano Chico António falou da sua passagem do campo para a cidade e das dificuldades a ela associadas “a primeira dificuldade foi a língua porque eu não falava português, sim changana. Foi muito difícil para mim comunicar. A segunda dificuldade foi que quando eu pedia algo para comer as pessoas batiam-me. Durante dois anos foi um pouco difícil”, disse. No entanto, “pelo caminho houve uma senhora portuguesa que me adoptou e pôs-me a estudar e, a partir daí, a vida começou a melhorar até hoje.”

Aconselha todos a “aproveitar as oportunidades. Podemos ser meninos de rua, mas também podemos ser presidentes ou ministros. Depende da forma como agarramos essas chances, com muita força, alegria e sabedoria”, sublinhou.

Foi Luís Cardoso quem ficcionou a história em tela, dando à “história as cores de um cenário fantástico onde o ocre do campo se a mescla com as luzes da cidade e dos seus múltiplos meandros”, como se pode ler na sinopse. “O livro em si foi um desafio, pelo facto de ser biográfico e sobre um artista que eu admiro muito, o Chico António”, destacou acerca do processo de produção. “O texto tem uma carga dramática muito grande e a imagem tem, também, de transmitir essa carga. Fiz os possíveis para que, através da imagem, o livro pudesse ser contado”, acrescentou.

No fim deixou algumas palavras de reconhecimento à EPM-CELP, pois, “aquilo que a escola portuguesa está a fazer é exemplar em termos da divulgação e da promoção da literatura em Moçambique, de novos escritores moçambicanos”. 

Frisou a importância da exigência colocada em cada um dos trabalhos, em “termos gráficos porque o mercado é exigente, portanto este sector é importantíssimo, principalmente quando se quer fazer de um livro um objecto de que se goste, que se queira ter”. Disse ainda que é “importante aprender a ler e a interpretar um texto tal como é interpretar a imagem. Aliás, estes dois campos complementam-se e potenciam-se”.

Dramatização da história pelos alunos da EC Unidade 23
A história foi dramatizada por alunos da Escola Completa Unidade 23, através de danças e teatro, sob a coordenação da Associação Iverca, ambas com sede em Maputo.

O livro é o 13.º lançamento da colecção infantojuvenil da Escola Portuguesa de Moçambique, através do Centro de Ensino e Língua Portuguesa.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

“Emigrar torna-nos seres humanos melhores”

Natural de Pombal e com 28 anos de idade, Catarina Domingues já leva na bagagem uma experiência de vida rica. Há um ano e meio mudou-se para Maputo e é Terapeuta da Fala na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM – CELP).

A oportunidade de viajar para Moçambique surgiu numa altura em que trabalhava em situação pouco estável na Lousã: “lembrei-me de uma amiga que tinha vindo para África e falei com ela”, conta a terapeuta. 

Decidiu tomar uma “decisão muito radical” no ano lectivo 2015/2016 e mudou-se em Agosto de 2015 para Maputo. “Lido com a imprevisibilidade de algumas situações num país em desenvolvimento”, afirma.

Apesar de não saber até quando vai ficar,
acredita que é necessária na escola, sendo
a única Terapeuta da Fala na EPM – CELP
e uma das poucas na capital de Moçambique. “Explicar o que é um terapeuta da fala e envolver as pessoas no meu trabalho contribui para que cada um dos meus dias tenha sucesso”, diz.

Entre os motivos que a fazem ficar estão
o clima e a diversidade cultural da capital moçambicana. Se, por um lado, os valores climáticos mais baixos que conhece foram 12 graus à noite, por outro, é a primeira vez que trabalha com alunos “que contactam com diversas línguas e dialectos”.

Em Portugal deixou a família e a memória de ter “uma rede de pessoas” mais disponível para a “ajudar a resolver problemas, nomeadamente em termos de casa”. As acessibilidades, nomeadamente aos bens alimentares, e a melhor relação “qualidade-
preço” no país-natal são aspectos que não esquece. 

Diz que “não há um perfil de emigrante” e pensa que “não é preciso ter pré-requisitos para emigrar”. Lembra que é importante a pessoa “afastar-se dos padrões a que estava habituado e chegar com a mente aberta ao país de acolhimento”. Só assim é possível “partilhar e receber experiências e formação bem como relativizar tudo o que acontece”.

O melhor por cá
O clima e a diversidade cultural são os dois aspectos mais positivos.

O pior por cá
A relação qualidade-preço dos alimentos é um dos aspectos mais condicionantes do quotidiano.

O mais surpreendente
O desafio profissional que a profissão exige. “Vejo-me como embaixadora da Terapia da Fala num país estrangeiro em que há um percurso para ser trilhado”, destaca.