quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lisboa e Porto: a importância da descentralização da informação

                                                        Fonte: www.atelevisao.com
A concentração da informação mediática em Lisboa é hoje uma realidade. No entanto verifica-se uma melhoria da comunicação entre Lisboa e Porto, devido ao desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação. A leitura atenta de jornais e pesquisa na Internet são utensílios usados, na reunião de pré-alinhamento, para definir os temas de cada dia. O Jornal da Tarde é marco da informação que se produz na RTP Porto.

Estúdio da RTP Porto, 12h59: O pivô Hélder Silva ajeita a gravata ao mesmo tempo que olha pela última vez para a notícia de arranque. Está preparado para começar, entre as quatro paredes verdes do estúdio 1, os holofotes que o iluminam e a câmara que aponta na sua direcção. Novidade, intensidade, proximidade e actualidade são quatro dos critérios jornalísticos que permitem definir o assunto que está em destaque.

A luz vermelha da câmara 1 onde está escrito “on air” acende. Hoje o assunto de abertura é de matéria política: “Boa tarde, o vice-primeiro ministro Paulo Portas admite que foi um erro o encontro entre o membro do Governo e os jornalistas e garante que não há nenhuma decisão tomada sobre o corte definitivo das pensões”, informa o jornalista. 

Esta é apenas uma pequena amostra de todo um trabalho que começa na redação, na reunião de pré-alinhamento, pelas 8h30, onde se decidem quais são os assuntos que estão na ordem do dia, apesar de o Jornal da Tarde começar às 13h em ponto. Depois de se lerem jornais e de se consultar, na Internet, quais são as notícias que estão em destaque, é altura de a televisão mostrar, explicar e detalhar.

Afinal, a RTP 1 é a estação que emite o programa de informação mais antigo de Portugal: o Telejornal foi para o ar pela primeira vez a 19 de Outubro de 1959. As emissões da RTP iniciaram a 7 de Março de 1957 nos estúdios da Feira Popular, em Lisboa. Um ano depois, a televisão cobria cerca de 44% do território nacional e chegava mais ou menos a 58% da população, atingindo todo o país apenas em meados dos anos 60. 

O alinhamento que é feito logo de manhã é completamente diferente do das notícias das 13h. “É óbvio que se olharem para o alinhamento da manhã e o de agora não têm nada a ver porque ao longo da manhã informativa há notícias que vão surgindo”. O chefe de redacção Hélder Silva exemplifica como se processam essas modificações: “hoje de manhã ficámos a saber que um avião neozelandês avistou aquilo que se supõe serem destroços de um aparelho que se pensa ser de um avião da Malásia. Isso fez com que a reportagem da Malásia que estava alinhada para as 13h30 tivesse passado para as 13h10”. Neste caso, há valores-notícia que falam mais alto: a actualidade e o envolvimento evidenciam-se e fazem com que este assunto assuma uma relevância maior.

Quando uma peça jornalística está no ar, o pivô olha para os apontamentos que estão colocados sobre a mesa branca. Concentra-se para lançar a notícia seguinte. O telejornal prossegue mas há aspectos que falham: durante a semana passada existiu um erro técnico quase todos os dias. “Uma reportagem que estava a ser emitida foi cortada de forma completamente abrupta e colocaram-me a mim no ar; continuou a ouvir-se o áudio da reportagem, mas o que o espectador estava a ver em casa era a minha cara”, explica o pivô. 

A RTP1 foi o primeiro canal em audiências até 1995, mas hoje é o terceiro. Em Março, o Jornal da Tarde foi o que registou um número inferior de audiências, com 24,8% comparativamente ao Primeiro Jornal (SIC) com 27,6% e ao Jornal da Uma (TVI) com 29,6% de acordo com os dados da Marktest Audimetria/Kantar Media.

“Há imagens cujo objectivo é o de criar impacto” 

A preponderância da imagem em movimento é visível quando há filmagens que não são notícia, mas que, pelo impacto que causam no público, têm um espaço no telejornal. Por exemplo, há duas semanas apareceu um “off de um salvamento de um trabalhador de complexos de luxo que estava a ser construído nos EUA. A forma como ele se salvou foi uma coisa inacreditável. Estava tudo a arder e ele foi para uma varanda em construção e sem protecção”, refere Hélder Silva. A imagem documenta o momento em que o homem consegue saltar para a estrada. “A escada começa a recolher e, nessa altura, uma parte do edifício desaba, e parece que vai atingi-la.” Pretende-se que as pessoas compreendam o dramatismo do momento, pelo que o objectivo não é o de dar uma notícia propriamente dita, mas sim o de criar impacto. 

A imagem em movimento é, por si só, um valor-notícia que a televisão ainda dispõe de diferente comparativamente à rádio e ao jornal. “A composição também é um valor-notícia em si mesmo. Vêem-se notícias que servem para compor o alinhamento de um jornal televisivo”, acrescenta o jornalista.

“A opção editorial de fazer cair uma reportagem de detrimento de outra pode ter a ver com a necessidade de compor melhor um jornal ou de aquela reportagem não ser um assunto tão ligado à actualidade que permita que ela seja embargada até ao dia seguinte”, explica Hélder Silva. Daí a razão pela qual a mesma poder entrar num outro dia e de não perder a actualidade. “Uma reportagem pode cair porque não cabe no espaço do jornal. Às vezes, o Jornal da Tarde prolonga-se até às 14h15”, afirma. 

O Jornal da Tarde prossegue nos estúdios do Porto. Apesar da melhoria da comunicação, devido ao desenvolvimento das novas tecnologias de informação, entre as duas grandes áreas metropolitanas, hoje ainda é bastante pronunciada a concentração da informação em Lisboa.

Dicotomia Lisboa-Porto interfere em opções editoriais

Apesar de a dicotomia Lisboa-Porto ser, ainda, uma realidade é devido às novas tecnologias que há uma comunicação e uma aproximação cada vez mais eficazes entre as duas grandes áreas metropolitanas. “Fala-se muito mais vezes e, por isso, sabemos o que estamos a fazer num lado e no outro”, explica Hugo Gilberto, sub-director da RTP no Porto.

 “É evidente que se um convidado estiver sentado numa mesa do estúdio ao meio-dia é muito mais fácil pegar num repórter de imagem e ouvi-lo. Cortamos a entrevista que está no ar porque o coordenador da manhã informativa esteve a falar com o coordenador do Jornal da Tarde e, portanto, a dinâmica que se faz lado a lado ou com dois ou três metros de diferença é muito maior do que quando se está a fazer uma coisa no Porto e outra em Lisboa”, afirma Hugo Gilberto. Desta forma, o telejornal ganha mais em ter uma grande parte da Tarde Informativa feita em Lisboa.

 A verdade é que o Jornal da Tarde é a imagem de marca da RTP que é feita no Porto: “o desporto (redacção e editoria) conseguiu ter sempre maior peso proporcional fora de Lisboa do que a economia ou a política”, afirma Hugo Gilberto. “É perfeitamente consensual na empresa que em três programas de futebol, dois sejam feitos no Porto”, diz. Daí o facto de muitas pessoas trabalharem na redacção entre as 8 e as 16 horas.

Na semana passada houve uma alteração de horários: a manhã informativa voltou a ser feita no Porto e a tarde informativa, entre as duas e as seis da tarde, voltou a ser feita em Lisboa. 

No Porto produz-se, actualmente, mais de metade da RTP informação. “Temos o Jornal da Tarde, o que nos permite ter vários tipos de trabalho para o jornalista, ou seja, desde a informação non-stop de um canal de notícias, à informação pensada com algumas horas de antecedência de um noticiário que é o segundo mais importante da RTP”, explica o sub-director da RTP1.

Há, ainda, um jornal pensado para um segmento sócio-cultural mais específico, que é a RTP2: abriu a 25 de Dezembro de 1968, e não obedece aos mesmos critérios de alinhamento de outros jornais embora os valores-notícia intensidade e proximidade se mantenham. 

“O facto de o Cristiano Ronaldo estar lesionado era notícia em Espanha esta manhã. Cabe no desporto, não é mais do que isso. Se o Cristiano Ronaldo tivesse uma lesão que eventualmente pusesse em causa a participação dele no mundial, isso seria abertura na RTP informação e no Jornal da Tarde. Não faria sentido abrir o Jornal 2 com essa eventualidade/suposição/forte hipótese da ausência do Cristiano Ronaldo. Isto permite-nos aqui ter experiências jornalísticas diferentes, complementares e mais complexas”, explica Carlos Daniel, jornalista da RTP1. 

Há opções editoriais que são feitas em função da dicotomia Lisboa-Porto. Carlos Daniel explica como pode ser mais fácil ou mais difícil tomar decisões em relação aos jornalistas que estão em Lisboa ou no Porto. “Torna-se sempre mais fácil tomar uma decisão em relação a alguém que está a 300 km de distância, sobretudo se esta for menos simpática, do que em relação a alguém que vamos encontrar a seguir num corredor ou numa máquina de café”, diz. 

“Comparativamente ao Jornal da tarde, em Lisboa o telejornal é o mais visto. A ambição do jornalista, muitas vezes, é ter a peça do telejornal. Nós temos jornalistas que colocam uma peça no jornal da tarde, que está todo o dia na RTP informação mas ficam frustrados se depois não entram às 20h. Somos todos assim”, explica o jornalista.

Os jornalistas tendem a dar especial atenção ao que os afecta, tendo em conta a região do país onde se encontram. Como exemplo existe a discussão da problemática do Ave a Norte, ao invés da problemática da Península de Setúbal nesta mesma região. Os repórteres de cada localidade falam do que lhes é mais próximo, mais imediato. Tentam alertar para as realidades que os preocupam e, consequentemente, as que os afectam. Daí que, para o que está longe da capital, o que importa é a gastronomia, o futebol, os arraiais, as feiras, as velhinhas, os contos do vigário, isto é o caricatural, o país parolo, a brejeirice, o ridículo, mesmo que exista exactamente o mesmo em Lisboa. 

Há, neste momento, jornalistas que se deslocam do Porto para a capital para encontrarem outras oportunidades que lhes permitam evoluir na carreira. O próprio Carlos Daniel admite que poderia ter feito outra escolha no passado. “ A única decisão da minha vida que eu não sei se foi boa ou má foi a decisão de ter regressado de Lisboa para o Porto. Do ponto de vista pessoal sei que foi a melhor, mas do ponto de vista profissional tenho a noção de que fechei a porta a uma série de oportunidades que poderiam ter acontecido.” No entanto, sabe que só fez esta deslocalização porque havia a RTP Porto e “porque o convite associado à possibilidade de desenvolver um projecto mantém-se e continua a aparecer. Sem ser na RTP há ilustríssimos jornalistas a fazer televisão na SIC, na TVI e no Porto Canal, mas não são muitos conhecidos”, revela. A principal dificuldade de constituir uma carreira no Porto é a de não se poder destacar muito.

Para combater a centralização da informação dos media é importante existir a consciência do provincianismo dos jornalistas. É imperativa a existência de pólos descentralizados de decisão do poder, de que é exemplo o que fazia a RTP com telejornal ao meio-dia no Porto e à noite em Lisboa. A produção de notícias e de conteúdos tem de estar muito mais descentralizada do que isso: quem decide quais são as notícias que vão ser abordadas tem de ser uma equipa multi-disciplinar e multi-região, isto é, que não esteja concentrada apenas nas duas grandes áreas metropolitanas. 

Entre notícias nacionais, internacionais, de política, de sociedade de cultura, e de desporto, no fim do telejornal há espaço para a moda. Hélder Silva coloca um sorriso no rosto ao mesmo tempo que recomeça: “há quem a considere a verdadeira primeira top-model portuguesa. Aos 22 anos Sara Sampaio tem um currículo invejável. É um modelo das mais ex-prestigiadas marcas de roupa e até entrou no desfile mais mediático do mundo. Em Milão, numa entrevista exclusiva à RTP, Sara Sampaio diz que estas são apenas pequenas conquistas porque sonha com muito mais”, Hélder Silva coloca um ponto final ao jornal do dia 28 de Março. Depois da exibição da peça, é altura da despedida: “é o que se chama terminar em beleza. Boa tarde e bom fim-de-semana”, remata o pivô.

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