Docente há 16 anos no Centro Educativo da Ilha e professora de muitas
crianças que a aldeia viu nascer, Lucinda Pereira, 46 anos, tem dedicado
praticamente toda a vida ao ensino. Residente em Carvide e com uma filha, já é
professora do 1º Ciclo do Ensino Básico há 24 anos, desde que tirou o curso de Educação, na Escola Superior de Educação
de Torres Novas, tendo-se licenciado, mais tarde, na Universidade Aberta de
Lisboa. O RodIlha falou com a
professora que conta a que transformações têm vindo a assistir os seus olhos
desde que é docente na Ilha.
RodIlha: Apesar de residir em Carvide, é à Ilha que tem dedicado o seu trabalho.
A que mudanças tem assistido desde há 16 anos até aos dias de hoje, na
localidade onde lecciona?
Lucinda Pereira (LP): Durante todos estes anos, assisti a uma evolução a
todos os níveis, especialmente no que concerne às infraestruturas e às mentalidades.
Ao nível das infraestruturas, foram construídos o Centro de Dia, o Lar, o edifício
da Pré e, posteriormente, o Centro Educativo. Estas valências vieram proporcionar
uma maior assistência à família, tanto a idosos como a crianças.
A implementação dos refeitórios nas escolas primárias, bem como o alargamento
do período de permanência na escola, das crianças da pré e do primeiro ciclo,
através, quer da antecipação da hora de entrada, quer do prolongamento da hora
de saída, vieram facilitar a vida profissional dos progenitores.
Ao nível das mentalidades, sentiu-se um aumento quantitativo e qualitativo
da participação dos pais/comunidade nas escolas, bem como do acompanhamento em
casa aos educandos.
RodIlha: Desde os 22 anos de idade exerce a profissão que é considerada por muitos
a base de todas as outras, sendo um trabalho nobre. Quais são os principais
desafios com que se depara, actualmente, ao nível do ensino?
LP: Motivar “crianças da era tecnológica”, extremamente “assediadas” pelas
novas tecnologias, televisão, Internet e jogos não é tarefa fácil. Exige um
constante apelo à sua concentração, de forma a obterem o maior sucesso escolar
possível.
RodIlha: Quais são as principais transformações no ensino com que se debate
desde que chegou à Ilha?
LP: O avanço rápido da sociedade, a nível científico e tecnológico,
“exigiu” mudanças a vários níveis. Consequentemente, desde 2000, operaram-se
grandes reformas curriculares no ensino, mais concretamente:
- As alterações na organização do currículo, consubstanciadas,
primeiramente, na definição das competências gerais/essenciais ou transversais,
e, posteriormente (em 2010), na formulação de metas de aprendizagem, com
alargamento substancial do programa a leccionar em cada um dos anos do 1º
ciclo;
- A implementação das Actividades de Enriquecimento Curricular;
- A atribuição de tempos mínimos para a leccionação das Áreas Curriculares;
- Os apoios especializados;
- Os currículos alternativos;
- A implementação dos exames nacionais em substituição das provas de
aferição;
- A inclusão da Língua Inglesa no currículo do terceiro ano, medida
implementada, pela primeira vez, este ano lectivo.
O ensino, à semelhança de outras áreas da sociedade, tem sido objecto de
constantes transformações e adaptações, inerentes a todo um processo evolutivo.
RodIlha: Há 16 anos a ensinar na Ilha, certamente já se deparou com episódios
caricatos. Há algum que queira partilhar?
LP: Um grupo de três ou quadro alunos do 3º e 4º anos deixaram,
propositadamente e sem que ninguém se apercebesse, uma porta das traseiras da
escola aberta e após a saída das professoras, no final das aulas, voltaram a
entrar na escola para acederem na Internet
a sites para adultos. Apenas no dia
seguinte, uma professora, quando contava uma história no computador, se
apercebeu que tinham acedido aos referidos sites.
RodIlha: Neste momento leciona no ensino básico do Centro Educativo da Ilha,
apesar de já ter estado antes numa escola básica. Porquê a Ilha?
LP: Desde 2000, ano em que fui colocada na Ilha, em concurso distrital, concorri
sempre à mesma escola e tive a sorte de não ter colegas com maior graduação
profissional interessadas nesta escola. A Ilha, porque gostei do ambiente da
escola: alunos, pais, comunidade envolvente e, claro, o bom ambiente de
trabalho com os colegas/amigos com quem tive e tenho o prazer de trabalhar,
foram factores preponderantes na minha decisão de lecionar na Ilha.
RodIlha: O ensino é uma escolha ou uma vocação?
LP: O ensino, para mim, é simultaneamente uma escolha e uma vocação. É uma
escolha, porque, há 27 anos, a via do ensino era uma carreira a seguir, uma vez
que a entrada no mercado de trabalho, por esta via, estava praticamente
assegurada. É uma vocação, porque sempre gostei imenso de crianças, e trabalhar
com elas é muito gratificante. Identifico-me com a minha profissão, sou feliz
com o que faço.
RodIlha: O ensino (formal e informal) é um pilar fundamental na vida das
pessoas. Quais são os principais desafios e obstáculos com que se depara um
professor actualmente?
LP: Numa era em que a “artificialidade social e humana” é cada vez maior,
com a consequente perda crescente dos valores fundamentais (pilares) da
sociedade humana, nomeadamente, a família, o humanismo e o altruísmo, o professor
tem uma responsabilidade acrescida, traduzida na necessidade de se adaptar a esta
nova realidade, de forma que possa fazer bom uso e tirar partido das
“ferramentas” e recursos que esta “Nova Era” disponibiliza, para
transmitir/ensinar, não só as matérias curriculares, mas, também, aqueles
valores fundamentais na sociedade humana. O professor tem que ser o “agente
mobilizador/catalisador” na batalha contra a desumanização e o artificialismo do
“Homem do Amanhã” (os seus alunos).
RodIlha: Na sua opinião, que características deve reunir um bom professor para
que responda positivamente às tarefas a que se propõe?
LP: Um bom professor deve possuir conhecimento do que vai ensinar, ser
competente na “arte” de transmitir esse conhecimento (ensinar), promover a
igualdade entre os seus alunos, estimular a curiosidade e a vontade de aprender,
procurar fazer algo de inovador e seguir as tendências da educação, estando
aberto à formação contínua. Paralelamente à sua actividade pedagógica, um bom
professor deve estar, também, num processo dinâmico de aprendizagem permanente,
pois só assim poderá optimizar as suas aptidões e os seus recursos.
RodIlha: Se pudesse, o que
mudaria hoje na sua profissão?
LP: Mudaria a instabilidade existente na profissão. Em relação à prática pedagógica diminuiria a extensão do programa, a carga horária dos alunos e aumentava os apoios educativos.
LP: Mudaria a instabilidade existente na profissão. Em relação à prática pedagógica diminuiria a extensão do programa, a carga horária dos alunos e aumentava os apoios educativos.
Ana Isabel Mendes
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