terça-feira, 13 de outubro de 2015

“Assisti a uma evolução nas infraestruturas e nas mentalidades”


Docente há 16 anos no Centro Educativo da Ilha e professora de muitas crianças que a aldeia viu nascer, Lucinda Pereira, 46 anos, tem dedicado praticamente toda a vida ao ensino. Residente em Carvide e com uma filha, já é professora do 1º Ciclo do Ensino Básico há 24 anos, desde que tirou o curso de Educação, na Escola Superior de Educação de Torres Novas, tendo-se licenciado, mais tarde, na Universidade Aberta de Lisboa. O RodIlha falou com a professora que conta a que transformações têm vindo a assistir os seus olhos desde que é docente na Ilha.


RodIlha: Apesar de residir em Carvide, é à Ilha que tem dedicado o seu trabalho. A que mudanças tem assistido desde há 16 anos até aos dias de hoje, na localidade onde lecciona?
Lucinda Pereira (LP): Durante todos estes anos, assisti a uma evolução a todos os níveis, especialmente no que concerne às infraestruturas e às mentalidades. Ao nível das infraestruturas, foram construídos o Centro de Dia, o Lar, o edifício da Pré e, posteriormente, o Centro Educativo. Estas valências vieram proporcionar uma maior assistência à família, tanto a idosos como a crianças.
A implementação dos refeitórios nas escolas primárias, bem como o alargamento do período de permanência na escola, das crianças da pré e do primeiro ciclo, através, quer da antecipação da hora de entrada, quer do prolongamento da hora de saída, vieram facilitar a vida profissional dos progenitores.
Ao nível das mentalidades, sentiu-se um aumento quantitativo e qualitativo da participação dos pais/comunidade nas escolas, bem como do acompanhamento em casa aos educandos.

RodIlha: Desde os 22 anos de idade exerce a profissão que é considerada por muitos a base de todas as outras, sendo um trabalho nobre. Quais são os principais desafios com que se depara, actualmente, ao nível do ensino?
LP: Motivar “crianças da era tecnológica”, extremamente “assediadas” pelas novas tecnologias, televisão, Internet e jogos não é tarefa fácil. Exige um constante apelo à sua concentração, de forma a obterem o maior sucesso escolar possível.

RodIlha: Quais são as principais transformações no ensino com que se debate desde que chegou à Ilha?
LP: O avanço rápido da sociedade, a nível científico e tecnológico, “exigiu” mudanças a vários níveis. Consequentemente, desde 2000, operaram-se grandes reformas curriculares no ensino, mais concretamente:
- As alterações na organização do currículo, consubstanciadas, primeiramente, na definição das competências gerais/essenciais ou transversais, e, posteriormente (em 2010), na formulação de metas de aprendizagem, com alargamento substancial do programa a leccionar em cada um dos anos do 1º ciclo;
- A implementação das Actividades de Enriquecimento Curricular;
- A atribuição de tempos mínimos para a leccionação das Áreas Curriculares;
- Os apoios especializados;
- Os currículos alternativos;
- A implementação dos exames nacionais em substituição das provas de aferição;
- A inclusão da Língua Inglesa no currículo do terceiro ano, medida implementada, pela primeira vez, este ano lectivo.
O ensino, à semelhança de outras áreas da sociedade, tem sido objecto de constantes transformações e adaptações, inerentes a todo um processo evolutivo.

RodIlha: Há 16 anos a ensinar na Ilha, certamente já se deparou com episódios caricatos. Há algum que queira partilhar?
LP: Um grupo de três ou quadro alunos do 3º e 4º anos deixaram, propositadamente e sem que ninguém se apercebesse, uma porta das traseiras da escola aberta e após a saída das professoras, no final das aulas, voltaram a entrar na escola para acederem na Internet a sites para adultos. Apenas no dia seguinte, uma professora, quando contava uma história no computador, se apercebeu que tinham acedido aos referidos sites.

RodIlha: Neste momento leciona no ensino básico do Centro Educativo da Ilha, apesar de já ter estado antes numa escola básica. Porquê a Ilha?
LP: Desde 2000, ano em que fui colocada na Ilha, em concurso distrital, concorri sempre à mesma escola e tive a sorte de não ter colegas com maior graduação profissional interessadas nesta escola. A Ilha, porque gostei do ambiente da escola: alunos, pais, comunidade envolvente e, claro, o bom ambiente de trabalho com os colegas/amigos com quem tive e tenho o prazer de trabalhar, foram factores preponderantes na minha decisão de lecionar na Ilha. 

RodIlha: O ensino é uma escolha ou uma vocação?
LP: O ensino, para mim, é simultaneamente uma escolha e uma vocação. É uma escolha, porque, há 27 anos, a via do ensino era uma carreira a seguir, uma vez que a entrada no mercado de trabalho, por esta via, estava praticamente assegurada. É uma vocação, porque sempre gostei imenso de crianças, e trabalhar com elas é muito gratificante. Identifico-me com a minha profissão, sou feliz com o que faço.

RodIlha: O ensino (formal e informal) é um pilar fundamental na vida das pessoas. Quais são os principais desafios e obstáculos com que se depara um professor actualmente?
LP: Numa era em que a “artificialidade social e humana” é cada vez maior, com a consequente perda crescente dos valores fundamentais (pilares) da sociedade humana, nomeadamente, a família, o humanismo e o altruísmo, o professor tem uma responsabilidade acrescida, traduzida na necessidade de se adaptar a esta nova realidade, de forma que possa fazer bom uso e tirar partido das “ferramentas” e recursos que esta “Nova Era” disponibiliza, para transmitir/ensinar, não só as matérias curriculares, mas, também, aqueles valores fundamentais na sociedade humana. O professor tem que ser o “agente mobilizador/catalisador” na batalha contra a desumanização e o artificialismo do “Homem do Amanhã” (os seus alunos).

RodIlha: Na sua opinião, que características deve reunir um bom professor para que responda positivamente às tarefas a que se propõe?         
LP: Um bom professor deve possuir conhecimento do que vai ensinar, ser competente na “arte” de transmitir esse conhecimento (ensinar), promover a igualdade entre os seus alunos, estimular a curiosidade e a vontade de aprender, procurar fazer algo de inovador e seguir as tendências da educação, estando aberto à formação contínua. Paralelamente à sua actividade pedagógica, um bom professor deve estar, também, num processo dinâmico de aprendizagem permanente, pois só assim poderá optimizar as suas aptidões e os seus recursos.

RodIlha: Se pudesse, o que mudaria hoje na sua profissão?
LP: Mudaria a instabilidade existente na profissão. Em relação à prática pedagógica diminuiria a extensão do programa, a carga horária dos alunos e aumentava os apoios educativos.

Ana Isabel Mendes

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