"a-a-A-a-a", ouço, assim que subo as escadas que me guiam à terapia da música. Os sons indistintos e facilmente decifráveis permitem prever o que se passa por dentro da sala número sete. Aquecem-se as vozes ao som melodioso do piano que acompanha o evoluir ritmado dos alunos de 10 anos. São nove e meia da manhã e estou a segundos de assistir a uma aula inesquecível de canto.
Aproximo-me um pouco mais da porta. Deixo-me ficar a ouvir as doces vozes de crianças sedentas de conhecimento. Não quero interromper mas apetece-me entrar para as ouvir de perto. As olhar. Ver as expressões calorosas enquanto entoam os "bi-bi-Bi-bi-bi" que acompanham os "sol-lá-Si-lá-sol" do piano. E, com receio de avançar e de interromper, sou impulsionada pela vontade de entrar dentro da sala. Bato, por fim, à porta.
Abre-me a porta a professora Cristina, enquanto me cumprimenta com um "Olá, esta é a Ana que vem assistir à aula". Um arrepio de timidez percorre-me a espinha dorsal. "Olá", cumprimento timidamente. Sento-me na cadeira junto à porta enquanto aguardo que retomem o aquecimento.
A professora explica como funciona o diafragma, contraído na inspiração e relaxado na expiração. Fala da importância da respiração e explica que o ar quente que emitimos quando vibramos os lábios deve trespassar a palhinha com que se fazem alguns exercícios. É constantemente lembrada a importância de um bom aquecimento para que, no fim, os músculos e as próprias cordas vocais estejam mais "à vontade" para entoar as canções com garra.
Entre risos e distracções prossegue a aula. É altura de começar com os "mmmmm" rítmicos da primeira canção. A professora chama à atenção daquele menino que olha para o lado e não pára de se rir. Está na altura de cantar e, três segundos antes do momento certo, é o silêncio que reina na sala. De aquecimento feito e vozes afinadas, está na altura de ouvir os cerca de 15 meninos do quinto ano, que partilham o mesmo espaço. Também canto (ou tento, pelo menos). Tento não me dar já por derrotada.
Entre duas músicas suaves, cantamos o "O Gafanhoto Canhoto". Não é que seja a minha música preferida, mas é aquela de que do título guardo recordação. As vozes afinadas são prova da evolução contínua e positiva destes pequenos grandes talentos. A professora elogia-os. Mas, agora, está na hora do cânone.
À medida que os pequenos cantam e quase que terminam, entoa na atmosfera musical a voz doce e melodiosa da professora. Alguns dos pequenos tapam os ouvidos para não perderem "o fio à meada". Afinal é a primeira vez que experimentam cantar a duas vozes. E, além de ser um voto de confiança da professora e um passo gigante da evolução dos pequenos, até que nem corre nada mal!
Deixo-me guiar pelos prazeres da audição. Que doces vozes! Que doce aprendizagem! Que doce infância! Agora, sala de aula, parece pequena para alojar tão grandes miúdos.
Fui de espírito aberto, de mente relaxada. Apercebi-me de como é bom sair da rotina e desbravar horizontes desconhecidos. Não criei expectativas. Não esperei nada de nada. Somente me atrevi a ouvir e a deixar-me encantar. Não me desiludi, bem pelo contrário. Apercebi-me de que, com esforço, com trabalho, com dedicação e com um gosto inesgotável por aquilo que se faz, por aquilo que se transmite é que é possível incendiar os corações dos mais pequenos com a magia da música.
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