domingo, 14 de janeiro de 2018

O paraíso escondido no norte de Moçambique

Pemba, o trampolim para um paraíso a perder de vista…

De Maputo a Pemba. De Pemba às Ilhas Quirimbas. Das Ilhas Quirimbas à beleza estonteante. Esta foi a última viagem de 2017 e, ao mesmo tempo, a primeira de 2018. Do sacrifício ao deslumbre, da frustração ao sonho e da idealização à realização foram muitas as peripécias que fizeram da minha viagem de 28 de dezembro de 2017 a 07 de janeiro de 2018 uma das melhores da minha vida.


Tudo começou em Outubro do ano passado, quando decidi passar o Natal e o Ano Novo em Moçambique. Afinal não é todos os anos que se tem a magnífica oportunidade para se conhecer novos sítios e descobrir diferentes culturas. Decidi que os dias de férias a que tinha direito seriam passados num lugar diferente, onde nunca tinha estado. Foi então que reservei o meu voo na companhia aérea moçambicana – LAM -para o dia 28 de Dezembro.

A ideia seria fazer a minha primeira viagem sozinha. Tudo apontava para isso até meados de Novembro, altura em que o meu amigo e futuro companheiro de viagem B, decidiu adquirir a passagem aérea para voar comigo rumo ao desconhecido. Assim foi: a 28 de Dezembro de 2017 embarcámos, pelas 10h30, numa aventura que se foi revelando  mais inesperada de dia para dia.

A viagem começou de uma forma um pouco atribulada. Depois dos avisos de turbulência e de mau tempo, tivemos de aterrar, durante meia hora, no aeroporto de Nampula. Não deu para aterrar em Pemba pois o piso estava demasiado molhado e escorregadio na pista de aterragem. Mas não estivemos muito tempo em Nampula; após meia hora na sala de espera do aeroporto, levantámos voo novamente.


Próximo destino: PEMBA! O céu estava encoberto e o tempo enublado. Apesar dos chuviscos e da chuva "molha tolos" que ameaçava cair, o clima quente e húmido abraçou-nos assim que saímos do aeroporto. A prioridade era a de arranjar um transporte que nos levasse até ao nosso alojamento, o Pemba Magic Lodge, o sítio onde passaríamos (supostamente) as dez noites seguintes. Ainda não calculávamos o que estava para vir…
Cheios de fome e de sede sentámo-nos nos bancos almofadados daquele espaço de convívio aberto. O ambiente acolhedor com que fomos recebidos animou, desde logo, os primeiros momentos no logde, que dista mais ou menos sete quilómetros da cidade de Pemba. Fomos bem recebidos e bem servidos. Tudo estava a correr às mil maravilhas! O tempo acabou por abrir e ainda deu para fazer uma caminhada a pé.

Pemba é a capital de Cabo Delgado e a província mais a norte de Moçambique. Inicialmente, uma pequena aldeia de pescadores – Paquitequete – Pemba como centro comercial foi fundada pela Companhia do Niassa no início do século XX, então conhecida como Porto Amélia, uma rainha portuguesa. De acordo com dados oficiais proporcionados pelo último censo realizado em Pemba, a população rondava as 150 mil pessoas. Os seus habitantes são principalmente Makuas, embora Makondes e Mwanis também tivessem vivido na capital de Cabo Delgado.

No segundo dia da nossa estadia deu para ir até à praia de Wimbi, um dos principais centros turísticos,  localizada a cerca de cinco quilómetros da cidade. Nos dois dias subsequentes houve tempo para realizar algumas actividades no mar, como um passeio de barco, mergulho e snorkeling.


Pelo caminho conhecemos e convivemos com um casal de nova-iorquinos, uma viajante nova-zelandesa e alguns missionários norte-americanos. Mas chegámos à conclusão de que isso não bastava; no fim de contas, Pemba quase se resume a praia e pouco mais havia para explorar em mais cinco dias… Seria muito tempo “desperdiçado” quando tanto haveria de bonito para ver a uns quantos quilómetros de distância da localidade…


Ilha do Ibo, uma história sem igual…

Foi no dia 30 de Dezembro que decidimos mudar o rumo da nossa viagem e investir em conhecer algumas ilhas do Arquipélago das Quirimbas. Realizámos um ou dois contactos e foi então que, no primeiro dia do ano de 2018, rumámos à Ilha do Ibo, uma pequena ilha coralina localizada próximo da costa da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

A vila de Ibo surpreendeu-nos assim que atracámos do pós-45 minutos de viagem, no cais de Quissanga. A ancestralidade com que se erguem dos edifícios, que contam as histórias da ilha fundada em 1761, foi que mais ressaltou à vista. A ilha de Ibo tem 10 km de comprimento por cinco de largura e está quase totalmente urbanizada, localizando-se aí a vila do Ibo, sede do distrito com o mesmo nome. Associada ao comércio esclavagista, localiza-se dentro do Parque Nacional das Quirimbas.

Durante 500 anos a Ilha do Ibo foi um porto de comércio próspero ocupando uma posição estratégica na costa Oriental Africana. Três fortificações, uma bonita igreja católica muito antiga e numerosos edifícios antigos fazem guarda sobre as águas. Piratas, marfim, intriga e tráfico de escravos fazem parte da história desta ilha de coral. Uma história fascinante recheada de segredos e de uma cultura muito rica está presente nos habitantes e ruínas, algumas que datam de 1500.

As pessoas do Ibo são amigáveis e acolhedoras; tive a felicidade de conhecer o habitante mais “experimentado” da ilha. Com 90 anos de histórias alucinantes, o senhor João Baptista fez-nos uma visita guiada aos tempos do colonialismo e da PIDE. Foi com espanto e curiosidade que me deixei absorver pelo entusiasmo que tão rica experiência de vida me proporcionou.

As gentes do Ibo são, maioritariamente, famílias de pescadores que desafiam as correntes e conhecem os canais ao redor do arquipélago tal como a palma das suas mãos. Há artesãos da prata que passam o seu ofício de pai para filho. A população vive, também, da agricultura de subsistência. É normal ver-se vacas a passar na praia, cabritas a cruzarem os caminhos de terra batida e galinhas a passear sem medos pelas ruas.

Crianças… Se eu pensava que já tinha visto muitas em Maputo é porque ainda não tinha visitado a ilha do Ibo. Crianças andam por todo o lado e divertem-se com os brinquedos criativos que constroem com materiais (aparentemente) inutilizáveis. Aquela alegria de quem nada tem e se contenta com pouco. Fazem lembrar a infância na aldeia dos meus pais, há 50 anos, por terras lusitanas.

A ilha do Ibo, a maior e mais populosa do arquipélago das Quirimbas, é apenas o trampolim de acesso às outras ilhas que constituem o arquipélago.




Ilhas Quirimbas, lugar da paz…


O Arquipélago das Quirimbas parece estar na rota de se tornar como um destino de escolha para aqueles que gostam de ilhas tropicais bonitas, quase virgens e sem muita gente. Apenas algumas das 32 ilhas de coral que fazem parte do Arquipélago das Quirimbas partem a norte de Pemba até à fronteira com a Tanzânia e estão a ser desenvolvidas, arrisco dizer, para servir um turismo de luxo.

Onze ilhas fazem parte do Parque Nacional das Quirimbas que abrange seis distritos da província de Cabo Delgado numa área total de 7500 km2.

Pude apreciar e fotografar paisagens perfeitas e águas claras e quentes, onde dei uns mergulhos e  fiz snorkeling. Ainda vi, pela primeira vez, golfinhos no seu habitat natural e tive oportunidade de nadar com eles. Além das actividades marítimas houve tempo para dar uma longa caminhada pela ilha, onde vi o Museu das Pescas, a Fortaleza, o mercado municipal e o local onde ser vende o saboroso café do Ibo.

Não tenho dúvidas de que este é o sítio ideal para quem procura relaxamento absoluto. Longe da cidade e perto do mar, do sol e do calor das suas gentes, a Ilha do Ibo constitui um destino paradisíaco de paragem obrigatória.


O orçamento para a viagem pode variar entre os 500 e os 1500 euros, mais coisa menos coisa. Tudo dependerá dos meios de transporte utilizados (andar de chapa marítimo e terrestre é consideravelmente mais barato. Partilhar barco e negociar com marinheiros locais também), o local da acomodação (dormir em lodges locais é bem mais barato do que em lodges estrangeiros), o local das refeições (é mais barato petiscar nos restaurantes locais do que nos estrangeiros) e da predisposição para investir mais ou menos. 

O voo de regresso a Maputo realizou-se pelas 14 horas de 07 de Janeiro de 2018 e decorreu nas calmas. Duas horas e meia (de voo) e cerca de 2500 km separam Maputo de Pemba.

Li algures que "as viagens são a única coisa que compramos e que nos deixa mais ricos". Não poderia estar mais de acordo; eu cheguei bem mais rica: com mais conhecimentos, com mais vivências, com mais aventuras para contar e partilhar, com a pele mais bronzeada, com a mente mais aberta e, acima de tudo, com a certeza de que quero viajar mais, muito mais!  

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